segunda-feira, 4 de março de 2013


ETAPAS PRINCIPAIS DA HISTÓRIA DA ASTRONOMIA

           A astronomia, ciência do universo e das estrelas, é de longe a mais antiga de todas as ciências. As suas origens perdem-se na pré-história da humanidade: muitos povos antigos, como os chi­neses, os caldeus, os egípcios, os maias da América central e outros, possuíam conhecimentos astronómicos relativamente desenvolvidos quando pela primeira vez apareceram no limiar da História. Embora os primeiros textos sobre as observações astronómicas pareçam datar do século VIII antes da nossa Era, sabe-se que os sacerdotes do antigo Egipto notavam que as grandes cheias do Nilo, de que dependia a vida económica do país, ocorriam pouco depois da estrela Sírio (para eles Sothis), a estrela mais brilhante do céu, aparecia a Este pouco antes do nascimento do Sol, eclipsada durante cerca de dois meses pelos raios solares. Foi a partir dessas observações que eles obtiveram uma determinação bastante precisa da duração do ano trópico.

          Dois mil anos antes da nossa Era, os astrónomos da China antiga conheciam os movimentos aparentes do Sol e da Lua, o que lhes permitia prever os eclipses do Sol e da Lua.

          Como todas as outras ciências, a astronomia surgiu para resolver certas necessidades práticas do homem. Na sociedade primitiva, as tribos nómadas, que se deslocavam continuamente, tinham necessidade de se orientar; para isso, recorriam ao Sol, à Lua e às estrelas. Para os seus trabalhos de campo, o agricultor primitivo necessitava conhecer o ciclo das estações; cedo notou que a sua sucessão estava ligada com a altura do Sol ao meio-dia e com o aparecimento no céu nocturno de certas estrelas. O desen­volvimento da sociedade humana tornou necessário começar a medir o tempo e assim surgiram os primeiros calendários e os primeiros relógios de Sol.

          Todos estes ensinamentos podiam ser e eram proporcionadas por observações dos astros, primitivamente realizadas sem qual­quer instrumento, muito pouco precisas mas suficientes para as tarefas práticas da época. Foram estas observações que deram origem à astronomia.

          À medida que a sociedade humana se desenvolvia, novos problemas se colocavam à astronomia, cuja resolução necessitava de métodos de observação mais aperfeiçoados e processos de cálculo mais precisos. Finalmente, surgiram os primeiros instrumentos astronómicos, muito simples, e os primeiros métodos matemáticos de tratamento das observações.

          Na Grécia antiga a astronomia era já uma das ciências mais desenvolvidas. Para explicar os movimentos aparentes dos plane­tas, os astrónomos gregos elaboraram a teoria geométrica dos epiciclos que constituía a base do sistema do mundo geocêntrico de Ptolomeu (século II da nossa Era). Embora estivesse incorrec­to, este sistema permitia calcular aproximadamente as posições dos planetas e contribuiu, em certa medida, para satisfazer às necessidades práticas durante vários séculos.

          O desenvolvimento do feudalismo conduziu a um declínio das ciências naturais e os progressos da astronomia na Europa estiveram parados durante vários séculos. Durante a Idade Média, os astrónomos limitaram-se apenas a observar os movimentos aparentes dos planetas e esforçar-se em pôr de acordo as suas observações com o sistema geocêntrico de Ptolomeu.

          Foi entre os árabes e os povos da Ásia Central e do Cáucaso que a astronomia continuou a progredir, graças aos trabalhos de sábios eminentes entre os quais podemos destacar Al-Battani (astrónomo persa do século X). Também na Península Ibérica, onde se fazia sentir bastante a influência árabe, Afonso X de Castela (avô do nosso rei D. Dinis) fundou em Toledo, no século XIII, um observatório astronómico e publicou umas tabelas astronómicas, as Tábuas Afonsinas, que vieram substituir as de Ptolomeu e se mantiveram até ao século XVII.

          Depois do feudalismo, com o advento de novas ideias, deu-se na Europa um novo impulso ao desenvolvimento da astronomia. As longas viagens marítimas, iniciadas pelos portugueses nos séculos XV e XVI, deram-lhe foros de ciência de utilidade prática, aplicável à resolução dos problemas da navegação, tais como o cálculo do ponto no mar, a determinação dos rumos a seguir e o traçado de mapas, mais ou menos rigorosos, das novas terras que se iam descobrindo. A par dessa utilização prática, a astronomia pura já tinha, independentemente de qualquer aplicação «útil» à vida corrente, uma vida própria, resultante da curiosidade humana de conhecer o Universo em que vivia e as leis que o regiam. Copérnico, ainda em pleno século XVI, determinou a verdadeira estrutura do sistema solar, ao defender que a Terra não estava imóvel no centro do universo, mas que girava em torno do Sol, assim como os outros planetas; surgia assim o sistema heliocêntrico e dava-se início a uma nova etapa na história da astronomia.

          Pouco depois, e utilizando as observações rigorosas de Tycho Brahe, Kepler conseguiu determinar as «regras» empíricas segundo as quais se efectuavam os movimentos dos planetas. Finalmente, Newton descobriu a lei geral da gravitação, donde se podiam deduzir aquelas regras.

          Uma vez razoavelmente bem conhecida a organização do sistema solar, tratou-se do estudo do Universo em geral, primeiro obser­vando e registando o que se via, depois procurando criar com imaginação modelos explicativos do que era observado, como, por exemplo, a partir das célebres contagens estelares de William Herschel e, finalmente, tentando-se medir as distâncias a que se encontravam as estrelas que se julgavam mais próximas do Sol. Esse objectivo foi conseguido com as medições de paralaxes trigonométricas das estrelas Vega (Struve, 1837), 61 Cygni (Bes­sel, 1838) e a Centauri (Henderson, 1839). Foi à resolução deste magno problema que se deveu, em princípio, a construção do Observatório da Tapada.

          O aperfeiçoamento das qualidades ópticas e mecânicas da aparelhagem utilizada, o aumento de potência dos telescópios e o rigor sempre crescente na determinação do tempo foram tornando cada vez mais rigorosos os resultados numéricos obtidos. Porém, tudo isto se dava apenas em relação a dados geométricos e dinâmicos, ou seja a posições e movimentos cada vez mais bem determinados.

          A constituição das estrelas, as distâncias às nebulosas extra-galácticas, as fontes de energia que asseguravam a vida do Universo e o faziam evoluir no decorrer do tempo, não tinham, porém, até princípios de século XX, bases sólidas em que se pudessem assentar com confiança teorias que as explicassem ou permitissem efectuar observações de que resultassem dados numéricos razoavelmente rigorosos. Tinham, no entanto, já nessa altura sido iniciadas as observações que dariam novo impulso à astronomia, orientando-a para novo rumo e fazendo nascer uma ciência inteiramente nova, a astrofísica. O princípio orientador dessas observações já era conhecido desde há longos anos; trata­va-se apenas da decomposição da luz por um prisma, que, nas mãos de Bunzen e Fraunhofer, deu origem à espectroscopia. O primeiro trabalho, como já antes tinha acontecido, foi apenas descritivo e de classificação. Fraunhofer analisou o espectro do Sol e descre­veu as riscas que nele se viam; Secchi fez o mesmo para as outras estrelas, classificando-as em grupos de acordo com o tipo dos espectros observados. Pouco a pouco, porém, a análise espectroscópica revelou-se poderosíssima em relação aos resulta­dos que permitia obter. Composição química das estrelas, tempera­turas, pressões, estados magnéticos, massas, rotação, movimentos de aproximação ou afastamento não directamente visíveis, distâncias, tudo isso podia ser determinado com maior ou menor rigor e directamente ou não através das observações espectroscópicas.

          Já em pleno século XX a astrofísica, assentando de início quase exclusivamente na espectroscopia, passou a receber forte ajuda das teorias físicas entretanto aparecidas. A relatividade, a teoria dos quanta, o conhecimento mais preciso da estrutura da matéria, a descoberta da desintegração atómica foram as fontes donde a astrofísica recebeu novo impulso.

          Outra fonte, de descoberta mais recente, onde a moderna astrofísica foi buscar novos elementos para observação e estudo, foi a radioastronomia. Esta tem hoje tão grande desenvolvimento que constitui, por si só, uma secção de trabalho astronómico com vida própria e independente. Com a radioastronomia pode dizer-se que se abriu mais uma janela para a observação dos céus. Já não é só a luz das estrelas que nos vem revelar a sua constituição, luz essa muitas vezes inobservável, por encontrar a barreira intransponível de nuvens na nossa atmosfera ou por ter sido enfraquecida ou absorvida pelas poeiras ou gases invisíveis existentes nos espaços siderais. Para as ondas de rádio, essas barreiras não existem; é assim possível a observação de zonas celestes fortemente obscurecidas por gases ou poeiras e que antes eram inacessíveis à observação luminosa. Foi-se assim, por intermédio das ondas de rádio, determinando a estrutura interna da Galáxia em que nos encontramos, estrutura essa já prevista nas suas linhas gerais, mas só agora acessível a uma observação direc­ta.

          Com o lançamento do primeiro satélite artificial em 4 de Outu­bro de 1957 iniciou-se uma nova era na exploração do Universo. Nesse dia, pela primeira vez, um objecto feito pelo homem abandonou definitivamente a superfície da Terra e, submetido às leis da mecânica celeste, passou a gravitar em torno do globo terrestre segundo uma órbita sensivelmente elíptica. A partir de então um longo caminho já foi percorrido pela exploração espacial. Em 1969 o homem pisou, pela primeira vez, solo lunar e iniciou a exploração do nosso satélite natural. Sondas automáticas já desceram em Marte e em Vénus. Pode dizer-se que todos os planetas do sistema solar, já foram visitados por sondas espaciais, cujas fotografias enviadas para Terra nos permitiram obter um conhecimento bastante apreciável acerca da sua constituição física. É actualmente possível colocar fora da atmosfera terrestre observatórios automáticos que nos proporcio­nam métodos de observação bastante sofisticados e em muito melhores condições do que à superfície da Terra. 

          Tem interesse notar o modo como o desenvolvimento gradual dos conhecimentos astronómicos tem vindo pouco a pouco a destruir a ideia inicial do antropocentrismo ainda tão vigorosa no tempo de Galileu, há uns escassos três séculos. Até Copérnico, e com raríssimas excepções, a Terra era considerada como o centro do Universo, e em torno dela gravitavam o Sol, os planetas e as estrelas. Copérnico mostrou qual a verdadeira posição do Sol dentro do seu sistema planetário, mas durante muitos anos pareceu que este sistema ocupava uma posição central dentro da sua Galáxia que, além disso, se revelava, aparentemente, maior do que todas as outras que se observavam no céu. Observações e teorias mais recentes acabaram por mostrar que a posição do Sol na Galáxia estava bem longe de ser central e, finalmente, que as dimensões daquela não a tornavam um estranho gigante, mas apenas um representante médio da população a que pertence. Verificou-se depois que as outras galáxias se estão a afastar da nossa com uma velocidade que é proporcional à distância a que se encontram. Poderia parecer, portanto, que ocupamos uma posição especial no espaço intergaláctico, posição essa pouco invejável, pois que todas as galáxias se afastam da nossa. Este galactocentrismo, sucessor grandioso do ingénuo geocentrismo inicial, é, porém, interpretado à base da cosmologia moderna como sendo devido à teoria da Expansão do Universo.

          Do resumidíssimo esboço que acaba de ser feito da evolução que a ciência astronómica tem tido durante o decorrer dos séculos deve tirar-se uma conclusão. A astronomia actual, aliás como sucede com todas as ciências, não ocupa um compartimento isolado no conjunto dos conhecimentos humanos. Vive e evolui utilizando os conhecimentos obtidos por outros ramos da ciência em geral; precisa da matemática, da física, da química e da geologia naquilo que estas ciências têm de mais moderno. Necessita igual­mente da biologia, da botânica e da zoologia para fazer a previsão do que poderemos um dia encontrar noutros planetas que talvez possamos alcançar.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013


A ASTRONOMIA EM PORTUGAL NA

ÉPOCA DOS DESCOBRIMENTOS



Ainda durante a primeira dinastia, e após a expulsão dos mouros do território nacional, os nossos monarcas começaram a preocupar-se com a administração interna do reino e a conceder uma certa protecção ao desenvolvimento das artes e das ciências. Assim, D. Dinis fundou em Lisboa, em 1288, as Escolas Gerais, que constituiram a primeira Universidade Portuguesa. Dado que, na época, não se reconhecia utilidade ao estudo das matemáticas, não foram estas incluidas no plano de estudos da nova Universidade, nem mesmo quando esta foi transferida para Coimbra em 1307.
É de admirar que D. Dinis não tivesse tomado a iniciativa de introduzir o estudo das matemáticas em Portugal, porque elas já começavam a desnvolver-se por toda a Europa, em particular na côrte de seu avô, D. Afonso X, o Sábio, rei de Castela e Leão, que muito as protegeu e animou nos seus domínios. Aquele monarca fundou em Toledo um observatório astronómico, para onde chamou vários astrónomos, alguns deles judeus e árabes. Dos resultados das observações aí realizadas, foram publicadas, por volta de 1270, as célebres Tábuas Alfonsinas, que continham as posições dos astros já com bastante precisão. Essas tábuas tornaram-se populares no século XIV, foram impressas, por várias vezes, nos séculos XV e XVI, sendo então substituidas pelas elaboradas por Kepler. D. Afonso X ordenou igualmente a tradução para castelhano e latim das mais célebres obras de astronomia até então conhecidas  e que foram reunidas na colecção universalmente conhecida pelo nome de Libros del saber de astronomia del rei  D. Alfonso X de Castilla. É quase certo que deviam ser conhecidas dos portugueses pelo menos desde o tempo de D. Dinis.
Foi no reinado de D. Afonso IV que, verdadeiramente, as ciências exactas começaram a ser cultivadas no nosso País. Diz-se que o próprio monarca se dedicava a especulações matemáticas, em especial à astronomia. Convém esclarecer que estes estudos eram essencialmente canalizados para a astrologia, a qual tinha e tem por finalidade prever o futuro a partir dos signos do zodíaco e das conjunções dos astros, e que se havia desenvolvido na Península, graças às obras astrológicas dos judeus e dos árabes.
O êxito da conquista de Ceuta, em 1415, deu aso a que o Infante D. Henrique procurasse obter dos mouros, não só após a batalha, mas também nas várias vezes que por lá passou, informações relativas ao interior e à costa de Áfirca. Os elementos colhidos, relativos acerca da situação e da riqueza dessas regiões quase incultas, despertaram na sua mente a convicção de ser possível alcançar a India por via marítima, como lhe acenderam o desejo de se tornar célebre com novos descobrimentos que facilitassem a propagação do evangelho naquelas terras remotas, dessem a Portugal novas terras e novas riquezas, e facilitassem uma expansão considerável no nosso comércio.
É com base nestas reflexões arrojadas que se criou o mito da Escola de Sagres, que perdurou durante longo tempo, e D. Henrique ter doado à Universidade de Lisboa um palácio que possuía na cidade para nele se ensinarem as disciplinas do «quadrivium» (astrologia, aritmética, geometria e música). Certamente que D. Henrique doou à Universidade, de que era «protector»,  esse palácio, mas esta Instituição esteve alheada da astronomia até princípios do século XVI. No que diz respeito à Escola de Sagres, alguns investigadores do século passado, nomeadamente Luciano Pereira da Silva e Luís Albuquerque, afirmam que a escola dos nossos primeiros navegadores foram as costaneiras dos barcos em que navegavam.
Também se tem mantido a convicção de que D. Henrique conseguiu trazer para Portugal o célebre cosmógrafo catalão Jácome de Mallorca (aliás, Jafunda Cresques), a fim de instruir os pilotos nas artes de navegar e promover o traçado de cartas geográficas. Esta informação também não está correcta. De facto, Jácome de Mallorca veio para Portugal, mas certamente, só por volta de 1360, de acordo com a data do seu nascimento (cerca de 1325).
Inicialmente, a navegação era feita à vista, pois os navegadores nunca se afastavam muito da costa, como acontecia no Mar Mediterrâneo. Quando se começou a navegar através do mar oceano, sem avistar a costa durante longos períodos, tornou-senecessário recorrer a linhas de rumo magnéticas e as cartas começaram a ser designadas por cartas-portulno, a que os nossos pilotos se foram adaptando.
Rezam as crónicas da época que os reis D. João I e D. Duarte também se  interessavam pelas ciências exactas, em particular pela astronomia e lhes deram todo o seu apoio. São referidas mesmo algumas observações por eles realizadas. Nas suas cortes existiam muitos astrónomos, ou melhor, astrólogos, que cultivavam principalmente a astrologia judiciária. Assim, na côrte de D. Duarte, encontramos Abraham Guedelha, de origem judaica, astrónomo e cosmógrafo do rei, particalarmente dado à astrologia. Parece que, no dia da coroação de D. Duarte, o temível Saturno estava numa posição de mau augúrio. Guedelha suplicou-lhe que adiasse a cerimómia, o que ele recusou. É devido a este facto que os crentes da astrologia lhe previram um reinado curto e infeliz, como de facto veio aacontecer. Pelo contrário, no horóscopo do Infante D. Henrique falava-se da longitude do Sol, de Marte, de Júpiter e de Saturno. Estas predicções e estes horóscopos não eram feitos ao acaso, mas com a ajuda de instrumentos de observação e de tabelas astronómicas, que já existiam na época.
Alguns autores afirmam que também D. Afonso V se dedicava ao estudo da astronomia, fazendo observações e divulgando os resultados. Outros defendem que deve haver confusão com D. Afonso X de Castela, pois nenhum dos cronistas da época que aborda estes assuntos se refere a D. Afonso V. Durante este reinado merece referência especial o astrónomo Juda Iben Verga, autor de umas tabelas astronómicas citadas por Abrham Zacuto , dum tratado de astronomia datado de 1457 (Lisboa), assim como dum estudo sobre vários instrumentos de observação.
No reinado de D. João II continuou a ser notável a protecção dispensada ao estudo das ciências exactas e da navegação. Alguns autores atribuem a este monarca a instituição duma  Junta dos Matemáticos, espécie de conselho técnico do rei, a qual tinha por missão estudar, simplificar e aperfeiçoar os instrumentos e os métodos usados na cosmografia e na astronomia, propôr outros e estabelecer as normas relativas à navegação. A criação desta Junta, que parece ter ocorrido em 1481, deve-se ao desejo  de consagrar todos os seus esforços ao desenvolvimento das viagens marítimas, em especial a descoberta do Caminho Marítimo para a India e de estabelecer contacos com o lendário Prestes João, rei dum país da África Oriental.
Quanto à organização da Junta, seu funcionamento e posterior dissolução, pouco se conhece de concreto. Tudo isso se encontra envolvido numa espécie de áurea de mistério, devido ao excessivo cuidado com que eram guardados os segredos das viagens, terras descobertas e métodos de navegar, para evitar que os estranjeiros deles tivessem conhecimento. Dela teriam feito parte o alemão Martim de Behaim (vulgarmente conhecido por Martinho da Boémia), os dois judeus José e Rodrigo, médicos do rei, o sábio Calçadilha, bispo de Viseu, e o castelhano D. Diogo Ortiz, bispo de Ceuta. As reuniões efectuavam-se em casa de Pedro de Alcáçova, a maior parte das vezes com a presença do rei. Era aí que as pessoas incumbidas de novas missões iam receber os instrumentos e as instruções convenientes. para o seu desmpenho. Entre os trabalhos realizados pela Junta citavam-se a preparação das tábuas do Sol, o desenho e actualização das cartas-portulano, e a apreciação dos projectos apresentados pelos navegadores, relativos às suas viagens.
Um dos primeiros trabalhos da Junta foi apreciar o plano da viagem de Cristóvão Colombo, destinado a alcançar a India, navegando sempre para ocidente, a que, como se sabe, foi dado parecer negativo. Esta decisão da Junta tem sido um pouco criticada; porém, o conhecimento que os geógrafos portugueses tinham das dimensões do globo terrestre, levavam a concluir que uma tal empresa era inútil e arriscada, pois, em seu entender, a rota mais curta e mais segura seria a de contornar o continente africano. Desconhecia-se ainda a existência da América.
Existem algumas controvérsias em relação a alguns membros da Junta. Assim, Calçadilha e D. Diogo Ortiz seriam a mesma pessoa, isto é, D. Diogo Ortiz, natural de Calçadilha (perto de Salamanca), sucessivamente bispo de Ceuta e de Viseu.
Relativamente ao alemão Martim de Behaim, pertencente a uma nobre família alemã e que se dizia discípulo do afamado astrónomo Jean de Koenisberg, mais conhecido pelo nome de Regiomontano, parece ter vindo para Portugal durante o reinado de D. Afonso V, depois da morte do Infante. Os seus compatriotas atribuem-lhe numerosas descobertas e a introdução em Portugal de vários instrumentos náuticos, entre eles o astrolábio náutico, o quadrante e a balestilha. Porém, o astrolábio náutico já era conhecido na Península havia dois séculos (encontra-se descrito nos livros de D. Afonso X de Castela); o quadrante já era igualmente conhecido antes da sua vinda; a balestilha só começou a ser utilizada pelos nossos navegadores por volta de 1530. É possível que Martim de Behaim tenha trazido para Portugal as Efemérides e as tábuas náuticas de Regiomontano. Mas, mesmo neste domínio, em Portugal já havia muito tempo que se fazia trabalho semelhante.
Alguns investigadores duvidam da existência da Junta dos Matemáticos como uma instituição permanente. Entendem eles que D. João II se limitava apenas em ter à sua disposição alguns homens entendidos em determinados ramos do saber, como a geografia, a astronomia e a cartografia, aos quais recorria, como melhor lhe convinha, para resolver determinadas tarefas relacionadas com os descobrimentos. Entre esses homens salienta-se também, além dos já mencionados, Duarte Pacheco Pereira, que, ao seu serviço, reconheceu os lugares e rios da costa da Guiné, participou na Conferência de Tordesilhas (1494) e, mais tarde, escreveu o Esmeraldo de situ orbis, fruto do seu muito saber e experiência. Naquele livro, cujos primeiros 14 capítulos foram escritos em 1505, são feitas descrições do astrolábio e do quadrante, os dois instrumentos utilizados para determinar a altura dos astros, usados pelos  nossos navegadores até ao século XV.
Desaparecido D. João II, foi no reinado do sucessor, seu primo D. Manuel I, que veio finalmente a concretizar-se a grande empresa idealizada pelo Infante D. Henrique: logo no início do seu reinado Vasco da Gama descobriu o Caminho Marítimo para a India.
Esta empresa, como hoje se reconhece, não foi obra do acaso; pelo contrário, foi cuidadosamente programada e estudada em todos os seus pormenores, norteada pelos princípios da cosmografia e da geografia e facilitada com os novos instrumentos da astronomia e da geometria, em grande parte inventados ou aperfeiçoados pelos portugueses.
Após a viagem de Vasco da Gama, outras se seguiram e todo o riquíssimo comércio com o oriente foi desviado de Veneza para Lisboa, o que transformou esta cidade num grande empório comercial.
Reconhecendo que esta prosperidade do reino era essencialmente devida aos progressos da cosmografia, da astronomia e da navegação, D. Manuel procurou desenvolver estas três ciências, dispensando-lhe todo o seu carinho e todo o seu apoio. Instituiu mesmo na Universidade de Lisboa, por alvará de 29 de Outubro de 1513, uma cadeira de astronomia. O primeiro lente nela provido foi Mestre Filipe, médico do rei, que se manteve em funções até 1521. Daí em diante, e até à transferência da Universidade para Coimbra (1537), coube ao físico Tomás Torres essa tarefa; tratava-se dum castelhano, entre os muitos que vieram para Portugal procurar fortuna, atraídos pela fama das prodigalidades do nosso monarca. Tomás Torres deu também aulas de astronomia a D- João III, antes da sua subida ao trono.
 Alguns autores atribuem a criação desta cadeira mais à credulidade de D. Manuel pela astrologia do que à renovação do espírito científico; estes investigadores afirmam mesmo que D. Manuel era tão dado á astrologia que, ao partirem para a India as naus de Vasco da Gama, mandou fazer horóscopos especiais ao famoso astrólogo Diogo Mendes Vizinho e depois a Tomás Torres. A astrologia estava então bastante em voga e era de bom tom cultivá-la, o que deu lugar a alguns epigramas por parte de Gil Vicente, que, troçando dos astrólogos, afirmava que eles confundiam a astronomia com a astrologia.
Entre os matemáticos deste tempo merece referência especial o insigne navegador Fernão de Magalhães. Este homem ilustre, caido em desgraça junto de D. Manuel  e da côrte, abandonou Portugal para dar a Castela a glória, que podia ter sido nossa, da realização da primeira viagem de circum-navegação, que veio provar experimentalmente ser a Terra redonda e isolada no espaço.  Não quis a sorte que Fernão de Magalhães chegasse ao fim dessa maravilhosa viagem (morreu em combate nas Filipinas em 1521), mas alguns dos seus companheiros foram mais felizes e o prórpio navio em que ele partira conseguiu dar a volta ao mundo.
Outro matemático notável desta época foi D. Francisco de Melo. Descendente da velha nobreza, nasceu em Lisboa em 1490; estudou na Universidade de Paris, onde foi aluno do célebre Pierre Brissot. Regressado a Portugal, foi encarregado por D. Manuel de várias missões políticas. Foi nomeado bispo de Goa, mas não chegou a ocupar o cargo, por entretanto ter falecido em Évora em 1536. Escreveu vários trabalhos sobre geometria e óptica, dedicados a D. Manuel, que infelizmente não chegaram a imprimir-se.
Entre os estrangeiros que nessa época estiveram ao serviço da coroa portuguesa, salienta-se Américo Vespúcio, que se tornou cosmógrafo de renome mundial, e Abraão Zacuto, antigo professor de astronomia na Universidade de Salamanca, que veio para Portugal em 1492, quando os judeus foram expulsos de Espanha. D. João II nomeou-o seu astrónomo, cargo que conservou com D. Manuel. Mas, quando este, em 1496, ordenou a expulsão dos judeus, Zacuto fugiu para Tunes e depois foi para Damasco, onde morreu em 1535  Deve-se a Zacuto o Almanach Perpetuum, redigido em hebraico e depois traduzido pelo seu discípulo José Vizinho – o Mestre José, médico do rei –, publicado em Leiria em 1496, embora já houvessem cópias manuscritas, pelo interesse que representava para a navegação. Foi este almanaque que serviu de base às nossas tábuas do Sol, da Lua e dos planetas, conhecidas até 1537, e não as Efemérides de Regiomontano, como durante muito tempo se afirmou.
Outros nomes importantes desta época que convém destacar são os de Duarte Pacheco Pereira, João de Lisboa e Francisco Faleiro. Os dois primeiros propuseram modificações importantes nas regras para a determinação das latitudes por meio da observação do Sol ao meio-dia. Francisco Faleiro, que foi director da Escola Náutica de Sevilha, publicou uma obra intitulada Tratado de la esfera y del arte de marear, composta de duas partes: na primeira, fazia uma descrição da Esfera Celeste; a segunda era dedicada ao estudo da arde de navegar. Acompanhou Fernão de Magalhães na sua ida para Castela e só não o acompanhou na sua viagem de circum-navegação por nessa data se encontrar doente..
Merece ainda referência especial nesta breve notícia sobre os matemáticos conteporâneos de D. Manuel, o algarvio Simão Fernandes, que se notabilizou por ter provado a falsidade do invento do castelhano Filipe Guilhen, a Arte de Leste a Oeste, uma espécie de astrolábio que permitia obter a altura do Sol em qualquer instante, falsidade que escapou ao próprio D. Francisco de Melo, quando o rei lhe pediu parecer sobre o invento.
Em 1537, D. João III transferiu novamente a Universidade de Lisboa para Coimbra, por entender, de acordo com a versão oficial, que a tranquilidade da rainha do Mondego era mais propícia ao estudo do que a vida tumultuosa duma grande cidade.
Não foram esquecidas as matemáticas na nova organização universitária, mas também não lhes foi dada a importância que mereciam, pois apenas lhes foi reservada uma cadeira entre as 40 que, segundo parece, eram ensinadas na Universidade. Os estudos matemáticos limitavam-se à geometria de Euclides, ao tratado da esfera e à teoria dos planetas. No entanto, esta deficiência foi compensada pela maneira verdadeiramente notável como os matemáticos de então cultivavam esta ciência.
Um deles, que deve ser considerado como o maior de todos, foi Pedro Nunes. Nascido em Alcácer do Sal em 1502, foi o mais célebre matemático de Portugal e de Espanha e um dos mais ilustre da Europa do século XVI. De ascendência judaica, estudou nas Universidades de Lisboa e Salamanca e ter-se-ia licenciado em Artes, Matemática e Medicina. Cosmógrafo do reino a partir de fins de 1529, passou pouco depois a acumular estas funções com as de professor de Filosofia Moral, Lógica e Metafísica na Universidade de Lisboa. Em 1531 foi convidado por D. João III para mestre de seus irmãos D. Luís e D. Henrique (o futuro cardeal-rei) e mais tarde encarregado de ensinar D. Sebastião. Foi este mesmo monarca que criou para ele o lugar de Cosmógrafo-mór do reino, no qual foi investido em 1547. Entretanto, depois de D. João III ter transferido a Universidade para Coimbra, ocupou o lugar de professor de matemática e astronomia naquela Universidade, cargo que exerceu até 1562, ano em que foi jubilado. Morreu em Agosto de 1578, uma semana após o desastre de Alcácer-Quibir.
São muitos e de grande valor, os trabalhos científicos de Pedro Nunes. Como Cosmógrafo, não se limitou a tratar das cartas náuticas e das tábuas e regulamentos para as navegações, missão principal do seu cargo. Fez muito mais do que isso, pois possuia, além de grande engenho, um profundo conhecimento da geometria e da astronomia dos gregos, dos árabes e dos judeus, mas também das obras dos astrónomos alemães Purbachio e Regiomontano. Por isso, no exercício do seu cargo, não se limitou a fazer aplicações das regras e métodos que a ciência náutica já dispunha; explicou-os e melhorou-os, ao mesmo tempo que enriquecia a náutica e a astronomia com novas invenções.
A sua primeira grande obra, o Tratado da Esfera, datado de 1537, é, no fundo, a tradução para português do Tratado da Esfera de Sacrobosco, ao qual juntou trabalhos de outros autores, incluindo Ptolomeu e alguns originais seus. Constitui essencialmente a base da sua actividade como Cosmógrafo do reino, e destinado aos pilotos que tinha por missão preparar. Nela são desnvolvidas algumas ideias de Ptolomeu, apresentadas regras, tábuas náuticas (de grande utilidade para determinar diferenças de longitude), descritos alguns instrumentos para a observação da altura das estrelas e propostos diferentes processos para determinar a latitude.
A obra mais original é, certamente, De Crepusculis, impressa em 1542. Foi escrita na sequência de algumas reflexões sobre assuntos de astronomia com o Cardeal Infante D. Henrique. Depois de expor algumas noções de astronomia esférica de que vai ter necessidade, estuda e resolve o problema da determinação da duração dos crepúsculos num determinado lugar da Terra e para uma determinada posição do Sol. Em seguida, procura analisar como varia a duração dos crepúsculos com a latitude do lugar e a declinação do Sol, vindo, finalmente, a resolver o problema mais complicado da determinação do dia de crepúsculo mínimo num determinado lugar e a duração desse crepúsculo. Trata-se dum exemplo de questões de máximos e mínimos, resolvido por Pedro Nunes muito antes da introdução do cálculo diferencial. É também nesta obra que é descrita a invenção para avaliar as fracções de grau nos instrumentos astronómicos, a qual, depois de simplificada e aperfeiçoada, conduziu ao que hoje conhecemos por nónio.
Numa exposição desta natureza não nos é possível continuar a fazer referência a muitas outras obras de Pedro Nunes, em que igualmente são abordados muitos outros problemas de astronomia.
A obra de Nicolau Copérnico De Revolutionibus Orbium Coelestium, onde é apresentado o sistema heliocêntrico, foi publicada em 1543, portanto, no tempo de Pedro Nunes. O nosso sábio refere-se a ela, mas não se pronuncia sobre a verdade ou falsidade do novo sistema, deixando a questão, segundo ele, para os filósofos. Sob o ponto de vista matemático, isto é, como método geométrico para determinar o movimento dos planetas e prever os fenómenos, exprime o desejo de que se construam tábuas apropriadas à nova doutrina, a fim de se verificar se o sistema heliocêntrico pode determinar as posições dos astros com maior exactidão e simplicidade do que o sistema geocêntrico. Pedro Nunes não foi hostil à inovação coperniana. Ser-lhe-ia favorável? Não o sabemos. É preciso notar que estávamos no período da Inquisição, que Pedro Nunes era de ascendência judaica e, portanto, seria bastante perigoso pronunciar-se a favor.

domingo, 17 de fevereiro de 2013


 
TUNGUSKA (O acontecimento de)

 

A propósito do meteorito caído no passado dia 14 de Fevereiro em Cheliabinsk (Rússia), junto à fronteira com o Cazaquistão, e que provocou uma enorme onda de destroços e mais de 1000 feridos, veio-me à memória um caso semelhante ocorrido há pouco mais de um século: O acontecimento de Tunguska.

Tratou-se dum enorme cataclismo ocorrido na manhã do dia 30 de Junho de 1908 na região montanhosa e arborizada do rio Tunguska, na Sibéria Central, 800 km a noroeste do lago Baikal. Uma gigantesca bola de fogo foi observada por alguns camponeses aterrorizados e a violenta explosão, que se deu em seguida, foi ouvida a mais de 800 km de distância. Num raio de 600 km, a partir do ponto de queda, os condutores dos comboios, assustados, pararam as suas composições. Os fragmentos do bólide devastaram o terreno numa área circular de 80 km de diâmetro. Os abetos, atingidos pela violenta deslocação do ar, foram arrancados, cortados e incendiados num raio de 10 km. A onda de choque foi sentida em Washington e em Java e durante as noites seguintes, na Europa, na Ásia e na América, o céu apresentou uma luminosidade estranha, que persistiu durante cerca de dois meses, provocada pelas nuvens de poeira que flutuavam a cerca de 80 km de altura.

Foram escavadas mais de 200 crateras, de 1 a 5 metros de diâmetro, atualmente cheias de água. Segundo o astrónomo soviético Astapovitch, o bólide pesaria, provavelmente, um milhão de toneladas quando entrou na atmosfera. Penetrou nela a uma velocidade de 60 km/s e o calor gerado pelo contacto com as moléculas de ar, devia ter sido da ordem de 5×1020 calorias. A elevada temperatura atingida pelo bólide provocou gradualmente a fusão das camadas superficiais, depois a sua volatilização, de maneira que, quando chegou perto do solo, deveria ter apenas 40 000 ou 50 000 toneladas. Apesar de não terem sido encontradas grandes pedaços do bólide, que explodiu no ar, parece que as amostras do solo da região contêm lascas microscópicas e esférulas de poeira de ferro-níquel.

A ausência de uma grande cratera e de evidências diretas do objeto, que teria provocado a explosão, levou a serem formuladas diversas teorias para explicar a ocorrência. Apesar de ser ainda um assunto em debate, de acordo com alguns estudos recentes a destruição teria sido provocada pelas massas de ar após a explosão de um meteoroide ou de um fragmento de cometa a uma altitude de 5 a 10 km de altitude, devido ao atrito provocado pela sua entrada na atmosfera. O corpo deveria ter um diâmetro de algumas dezenas de metros e a energia da explosão deveria ser da ordem de 10 a 15 megatoneladas de TNT, isto é, cerca de 1000 vezes a bomba de Hiroshima, tendo provocando um sismo que se prevê ser da ordem de grau 5 na escala de Richter.

Relativamente à natureza do corpo, a questão continua a ser debatida. Em 1930, o astrónomo norte-americano Fred Whipple sugeriu que teria sido um pequeno cometa, um objeto essencialmente constituído por gelo e poeiras, que se teria vaporizado completamente na atmosfera, não deixando traços visíveis. Esta hipótese recebeu uma aceitação considerável, em virtude do brilho noturno, que se observou no céu durante muitas noites, poderia ser explicado pela luz do Sol refletida no gelo e nas poeiras dispersas pela cauda do cometa na alta atmosfera.

Em 1978, o astrónomo eslovaco Lubor Kresák sugeriu que talvez se tratasse dum fragmento do cometa Encke, responsável pela chuva de meteoros conhecida por β Táuridas. A ocorrência coincidiu com um pico de atividade da referida chuva e a trajetória estimada do corpo que provocou a explosão está de acordo com a que tomaria um fragmento de cometa.

Em 1983, o astrónomo checo Zdnek Sekanina publicou alguns artigos criticando a hipótese cometária. Segundo ele, se se tratasse dum corpo cometário, seguindo a trajetória observada, ele ter-se-ia desintegrado a grande altitude e não na baixa atmosfera como, de facto, aconteceu. Sugeriu que deveria tratar-se dum corpo mais denso, de natureza rochosa, provavelmente um fragmento de asteroide. Esta hipótese é igualmente defendida por outros astrónomos, visto que a sua trajetória leva a concluir tratar-se dum corpo vindo da cintura de asteroides. A grande dificuldade em aceitar esta teoria é que se trataria dum corpo rochoso e teria dado origem a uma enorme cratera e esta nunca foi encontrada. Porém, na década de 1990, alguns investigadores italianos extraíram resina de algumas árvores na zona de impacto e encontraram altas taxas de metais existentes nos asteroides e raramente nos cometas. Daqui toda a confusão acerca da sua natureza.

Várias outras teorias têm sido apresentadas, embora de pouca aceitação. Destacamos: choque com um mini buraco negro, choque com um pedaço de antimatéria, encontro com uma neve extraterrestre, etc. Dado que estas hipóteses não nos parecem ser aceitáveis, não lhe daremos qualquer desenvolvimento.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

 
O TRATADO DE TORDESILHAS
 
Quando Cristóvão Colombo regressou da América, após a sua primeira viagem (1493), D. João II fez saber aos Reis Católicos que as terras por ele descobertas pertenciam à coroa portuguesa, por se situarem a sul das ilhas Canárias, em conformidade com o Tratado de Alcáçovas, celebrado em 1479[1].

Com descoberta de Colombo, tudo se complicou. Embora se julgasse que as mesmas pertenciam a Portugal, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, a pretexto de terem sido eles os armadores da expedição, recorreram ao Papa Alexandre VI (o aragonês Rodrigo Bórgia) para que este lhes reconhecesse, como árbitro, essa posse, desenvolvendo nesse sentido grande atividade diplomática. Apressadamente o Papa, pela bula Inter Coetera II, marcou uma linha divisória de Pólo a Pólo, que passaria 100 léguas a ocidente da ilha mais ocidental dos Açores ou de Cabo Verde (certamente por sugestão de Colombo); a parte oriental ficaria para Portugal e a ocidental para Castela. D. João II recusou a decisão e projetou logo tratar diretamente do assunto com os Reis Católicos.
Após alguns contatos exploratórios, foi decidido realizar uma reunião em Tordesilhas com representantes dos dois países. Os Reis Católicos acabaram por renunciar à linha traçada por Alexandre VI e aceitaram outra da delegação portuguesa. Considerava-se a Terra dividida em duas zonas de influência: a ocidental atribuída a Castela, a oriental a Portugal. A divisão era feita ao longo dum meridiano traçado 370 léguas a oeste de Cabo Verde. O tratado foi assinado em Tordesilhas pelas respetivas delegações em 7 de Junho de 1494 e posteriormente ratificado pelos Reis Católicos e por D. João II. A pedido de D. Manuel, em 1506 o tratado foi sancionado pelo Papa Júlio II.
 Esta linha deveria ser fixada no prazo de 10 meses, o que acabara por não acontecer, especialmente por dificuldades técnicas. Assim, o meridiano de Tordesilhas nunca foi demarcado porque só muito mais tarde é que se começou a dispor de equipamento para o poder fazer, nomeadamente para a medição do tempo.

Também o tratado não dizia qual a ilha que deveria servir de ponto de referência para começar a contar as 370 léguas nem se as mesmas eram contadas ao longo do equador ou ao longo dum paralelo médio de Cabo Verde, isto é, cerca de 16º norte e estas questões tinham uma importância relevante na localização do referido meridiano. Notar também que se trata duma légua antiga, que teria cerca de 6600 de extensão. 
Ao impor mais essas 270 léguas em relação à proposta castelhana de 100 léguas, Portugal salvaguardava para si a rota africana do sudoeste em que havia muito tempo andava empenhado (em todo o Atlântico Sul, que para essa rota era necessário, devido à larga curva de navegação oceânica). É também provável que D. João II tivesse informações acerca de terras situadas a ocidente. Chegados a entendimento, Castela reservou para si as novas terras descobertas por Colombo e que sustentava ser a Índia.
De início, não surgiram problemas a ocidente. Mas, no século XVI, durante o reinado de D. João III, acentuaram-se os conflitos a oriente, ao longo do antimeridiano de Tordesilhas, sobre a posse das Ilhas Molucas. Estas ilhas cairiam no hemisfério castelhano se a contagem das 370 léguas fosse feita a partir da ilha cabo-verdiana mais próxima do continente africano e no hemisfério de Portugal se as mesmas fossem contadas a partir da ilha mais ocidental. Notar que as Ilhas de Cabo Verde se estendem por quase 3º em longitude, o que representa quase 50 milhas de extensão este-oeste. Dada esta incerteza e ao interesse que Portugal tinha sobre estas ilhas, devido a serem muito ricas em especiarias, D. João III decidiu comprar a Carlos V o direito de posse das mesmas por uma quantia avultada, de que aliás não dispunha nessa altura (Tratado de Saragoça, 1529).
É durante os anos de 1735 a 1737, com o assalto dos espanhóis à Colónia do Sacramento, na margem esquerda do Rio da Prata,  e a sua heroica defesa pelos portugueses, que o problema dos limites entre a América portuguesa e a espanhola se apresenta com toda a sua acuidade. Mas muito antes, D. João V, movido por bom conselho e rara previsão, procurava discretamente estabelecer as bases científicas do problema ou, por outras palavras, averiguar até que ponto a Colónia do Sacramento estava fora da soberania portuguesa, delimitada pelo meridiano de Tordesilhas.
Com efeito, o monarca mandara contratar em Itália, para o servirem como astrónomos ou, mais exatamente com técnicos de observação de longitudes, os Padres João Baptista Carbone e Domingos Capassi, da Companhia de Jesus, que, em Setembro de 1722 chegaram a Lisboa. Chamava-se-lhes então os «Padres Matemáticos». Após uma estadia de cerca de 7 anos, em Novembro de 1729 embarcaram para o Brasil os Padres Diogo Soares e Domingos Capassi (o Padre Carbone ficou na corte em Portugal como secretário de D. João V e professor dos filhos), a fim de fazerem levantamentos cartográficos de diversas zonas daquela colónia, em particular daquelas que podiam levantar dúvidas.
Os princípios consagrados pelo Tratado de Tordesilhas mantiveram sempre a sua validade na arbitragem das disputas luso-espanholas na América latina até à sua efetiva revogação pelos Tratados de Madrid (1750) e de Santo Ildefonso (1777), que fixaram as fronteiras do Brasil com as colónias espanholas que se mantiveram, com pequenas alterações, até à atualidade.

Com os dados de que dispomos atualmente e tomando como referência a ilha mais ocidental de Cabo Verde, o meridiano de Tordesilhas passa, em território brasileiro, por Belém do Pará e  por Laguna, em Santa Catarina. Nestas condições, a superfície do Brasil teria sido três vezes menor do que a atual se se tivesse em consideração o Tratado de Tordesilhas. Assim, a Colónia do Sacramento era, à data do conflito, nitidamente em território espanhol.
 


[1] De acordo com este tratado, D Afonso V reconhecia a Castela a posse das Ilhas Canárias (disputa que se arrastava desde o tempo de D. Afonso IV) e os Reis Católicos concordavam que Portugal ficasse com a Guiné, bem como com as ilhas achadas ou por achar , a sul do paralelo das Ilhas Canárias.

segunda-feira, 30 de julho de 2012


DISCOS VOADORES

Discos voadores: duas palavras que, separadamente, têm o seu significado próprio, e que juntas se plicam a algo cuja natureza é muito discutível. Um disco voador ou objeto voador não identificado, mais conhecido pela sua sigla OVNI, é um objeto que tem a forma de um elipsoide de revolução muito achatado, por vezes com um bojo central na parte superior, e, eventualmente, com três ou quatro patas. É assim o disco voador convencional. A sua cor é prateada e, por vezes, sobretudo de noite, com cintilações de várias cores, vermelho, verde, etc.

O seu comportamento é extraordinário, aparece de maneira súbita no céu, desloca-se a velocidade extremas, até cerca de 10 000 km/h, sem se notar a resistência do ar, nem produzir ruido e menos ainda o «bang» ao ultrapassar a barreira da velocidade do som. Em algumas ocasiões, mudam de direção até 90º de forma instantânea, param repentinamente e retomam a marcha igualmente, sobem e descem com a mesma rapidez. Em muitas ocasiões, têm produzido efeitos eletromagnéticos extraordinários, como motores de automóveis que deixam de trabalhar e recetores de que deixam de funcionar ao passar nas proximidades de um ovni. Outra manifestação extraordinária é a aterragem. Segundo algumas descrições, raramente deixam pegadas no solo, já foram vistas algumas pessoas, contando-se até casos de algumas vacas deixarem de produzir leite durante várias semanas após uma aterragem nas proximidades. Todas estas maravilhas e outras parecidas recordam os contos de fadas e de animais que falam, com que se divertem as crianças. Um comportamento tão fora do normal não se pode ser atribuído a artefactos de natureza humana.

A conclusão é óbvia: os ovnis devem ter proveniência extraterrestre, os seus tripulantes vêm de mundos muito mais adiantados do que nós, e a resistência de tais gentes talvez se deva a serem constituídos à base de silício, em vez de carbono, que é o fundamento da vida vegetal e animal na Terra. Tal suposição deriva de tanto o átomo de carbono como o de silício permitirem a formação de grandes moléculas ou em cadeia. Mas com o silício obtêm-se as pedras e as rochas, de maior estabilidade à temperatura a que ocorrem as reações químicas que constituem a vida à base de carbono que conhecemos.

A ciência (?) que estuda os discos voadores chama-se Ufologia, vocábulo derivado de ufo, iniciais da palavra inglesa unidentified flying objects (objetos voadores não identificados). Não é uma ciência de experimentação, mas de observação. Os estudiosos dos ovnis não podem provocar o fenómeno e é fatal que não observem nenhum. Têm de limitar o seu trabalho a interrogar as pessoas que afirmam tê-los visto. Isso tem dois inconvenientes. Em primeiro lugar, o observador casual, em geral, desconhece astronomia, astronáutica, geofísica, meteorologia, etc., e considera como ovni os bólides, o planeta Vénus, os satélites artificiais reentrados na atmosfera, os globos sonda, etc. Se conhecesse aquelas ciências, não consideraria estes fenómenos como ovnis. Em segundo lugar, a pouca fiabilidade de um único testemunho. Em direito romano dir-se-ia testem unum, testem nullum (testemunho único, testemunho nulo), como recordam os juízes. Não trataremos das aterragens e outras maravilhas, que se enquadram melhor no domínio da psiquiatria.

Não é credível que venham de outros planetas do Sistema Solar. Mercúrio sem atmosfera e a elevada temperatura; Vénus, com atmosfera de anidrido carbónico e 400 ºC ou mais de temperatura; os asteroides, cuja pequena massa não lhe permite ter atmosfera; Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno com atmosferas redutoras (metano, amoníaco, hidrogénio) e baixas temperaturas (‒135 ºC ou menores); e Plutão, a ‒200 ºC, não podem albergar qualquer tipo de vida. Talvez Marte escape à exceção, pois possui uma pequena atmosfera e com temperaturas da ordem dos ‒90 ºC, permitir-lhe-á possuir algum tipo de vegetação rudimentar, como musgos e líquenes.

Se os ovnis não vêm de outros planetas do Sistema Solar, devem provir de planetas de estrelas próximas, que tenham o espectro semelhante ao do Sol. São: ε Eridani, a 10,8 anos-luz de distância e espectro F2, e ε Ceti, a 11,8 anos-luz e espectro G4. O do Sol é G2. Estes tipos espectrais correspondem a estrelas de vida longa, que permite assegurar uma evolução orgânica aos seus planetas.

Põe-se, no entanto, o problema da viagem. A estrela mais próxima de nós, α Centauri, encontra-se a uma distância de 4,3 anos-luz, isto é, a sua luz demora 4,3 anos a chegar até nós (velocidade da luz: 300 000 km/s). Se imaginarmos ser possível imprimir a uma nave uma velocidade da ordem de um décimo da velocidade da luz, o que é materialmente impossível, uma viagem, num só sentido, demoraria 43 anos terrestres. Para as estrelas indicadas, seria da ordem dos 150 anos.

Mas, como em ciência de ficção, aos tripulantes dos ovnis nada é impossível. Estão tão adiantados que os seus veículos talvez possam ultrapassar a velocidade da luz, viajarem em estado de hibernação, etc. Pena é que tão grande saber apenas seja usado para vir explorar o nosso pequeno mundo e regressem a seus lares sem deixar qualquer notícia. Na realidade, apenas servem para espalhar a confusão na cabeça dos leitores dos numerosos livros que sobre o tema se publicam.

Talvez o fenómeno das miragens nos passa dar também alguma ajuda. Uma miragem é um fenómeno ótico , que ocorre em dias de muito calor, principalmente nas estradas em paisagens desérticas ou no alto mar, que altera duma maneira bastante intensa o aspeto das paisagens. Todos estaremos ainda lembrados da onda gigante que em Agosto de 1999 ameaçou invadir as praias de Vila Moura e Quarteira e que foram mandadas evacuar pelas autoridades militares numa confusão sem precedentes. Tratava-se de uma miragem provocada por uma onda de calor proveniente do norte de África.

Se avançarmos mais um pouco e pensarmos nas trovoadas? Sabemos que o intenso campo magnético desenvolvido pelos raios delas provenientes são suficientes para parar o motor de um automóvel ou provocar perturbações nas transmissões via rádio e desenvolver o fenómeno fading. Não se trata de ovnis.

E se introduzirmos agora a geofísica e os intensos campos eletromagnéticos desenvolvidos pela atividade solar em volta da Terra, principalmente nos períodos de máxima atividade. É aqui que devemos procurar explicar os casos ocorridos com as aeronaves ao analisar os intensos campos magnéticos que se criam à sua volta. Feito isto, talvez teremos desvendado quase todos os casos até agora inexplicáveis. As estatísticas indicam haver apenas uma percentagem residual que ainda não têm explicação (menos de 4%). É necessário que os cientistas dediquem algum do seu precioso tempo a fazer conferências sobre este tema, diminuindo assim a ignorância que infelizmente se instalou nalgumas mentes.

Finalmente, vou abordar alguns exemplos, os dois primeiros passados comigo e o terceiro passado com o General da Força Aérea Lemos Ferreira, ao tempo Capitão.

1.º caso. Pouco depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, algumas forças militares foram destacadas para dar apoio às populações. Destaco o caso de uma companhia de Engenharia encarregada de construir ou reparar algumas estradas municipais nos arredores de Lisboa. Os militares estavam acampados na zona das obras e todos os dias, ao cair da noite, pairava sobre o acampamento um corpo muito brilhante, que os militares pensavam ser algum objeto enviado pelo inimigo para os espiar. Um oficial ali destacado, que me conhecia desde a infância, procurou-me para ver se eu tinha alguma explicação para o fenómeno. Analisada a questão in loco, conclui ser o planeta Vénus, que à data estava muito brilhante. Aliás, este planeta é responsável por uma grande quantidade de ovnis.

2.º caso. Num determinado dia de Verão, ia eu, ao fim do dia, para o Observatório Astronómico de Lisboa, a fim de fazer uma observação astronómica. Ao chegar à zona da Tapada vejo no céu um balão, que parecia ter suspensa uma pequena caixa e descia mais ou menos ao longo do Tejo em direção ao mar. Já no Observatório, com um binóculo, confirmei isso mesmo e ao começar a escurecer tornou-se muito brilhante, em virtude de estar ainda a ser iluminado pelos raios solares. Confirmei junto do Instituto de Meteorologia que deveria ser um balão meteorológico sonda, não deles mas proveniente de Espanha ou de Itália. Às vezes, estalões percorrem grandes distâncias. Ali tive um ovni até pouco depois das 23 horas, com muitos telefonemos, que perturbou o meu trabalho programado.

3.º caso. No dia 4.09. 1957, quatro aviões F-84, da FAP, comandados pelo Cap. Lemos Ferreira, mais tarde General e Chefe do Estado-Maior da FAP, partia da Base Aérea da OTA, em treino de navegação noturna com destino a Córdova, regressando em seguida em direção a Portalegre e depois à OTA. De regresso, os quatro pilotos viram na direção de Cáceres, a norte, uma esfera esquisita, parecendo um corpo celeste anormal. O corpo encontrava-se na frente dos aviões e sensivelmente à mesma altitude, cerca de 8 km. Enquanto opinavam sobre o que devia ser, o corpo reduziu-se repentinamente, voltando pouco depois à dimensão inicial. O fenómeno repetiu-se diversas vezes, durante cerca de 15 minutos. Na zona de Cáceres, ao infletirem na direção de Coruche, começaram a ver o objeto à esquerda com a forma de um dedo ligeiramente encurvado e de cor avermelhada. Depois apareceram mais 4 pontos brilhantes, tomando o aspeto da figura junta, que pareciam ir contra os aviões, o que obrigou a esquadrilha a dispersar-se. Entretanto, os objetos deixaram de ser vistos.

Lemos Ferreira fez o respetivo relatório da ocorrência, mas não foi levado muito a sério. No entanto, ele teve o cuidado de se informar junto do Instituto Geofísico de Coimbra se nessa noite o campo magnético terrestre havia sofrido alterações sensíveis, o que, de fato, foi confirmado. Aqui temos um caso que pode muito convenientemente ser explicado pela geofísica, havendo conhecimento de casos posteriores semelhantes (Julho de 1975 e Setembro de 2001).

quinta-feira, 26 de julho de 2012


O PROJETO LANDSAT



Projeto norte-americano que consiste no lançamento de satélites civis destinados à observação dos recursos naturais da Terra a partir do espaço (deteção remota). O projeto é simultaneamente coordenado pela NASA e pela USGS (United States Geological Survey).
O primeiro satélite, lançado em 23.07.1972, marcou uma reviravolta nas aplicações espaciais. Com efeito, era inteiramente destinado à observação da Terra, a partir do espaço. Inicialmente, a observação espacial da Terra para fins civis, além do domínio muito particular da meteorologia, tinha sido testada a partir de alguns veículos espaciais em órbitas circunterrestres.
O interesse pelas fotografias espaciais tinha sido claramente estabelecido para numerosas aplicações: cartografia, delimitação dos territórios, classificação dos terrenos e das vegetações, evolução das culturas e das florestas, geologia, hidrologia, oceanografia, etc. Em particular, tinha-se concluído ser bastante interessante a técnica conhecida por “fotografia multibanda”, que consiste em obter simultaneamente uma fotografia da mesma região em diversos comprimentos de onda, sendo escolhido cada um deles para fazer ressaltar determinados elementos presentes.   
Com uma massa da ordem de 1 tonelada, o Landsat 1(L.1) gravitava a cerca de 900 km de altitude, numa órbita quase polar, com 99º de inclinação em relação ao equador e ajustada para ser heliossíncrona, isto é, conservando a mesma orientação em relação à direção Terra-Sol. No decorrer do seu movimento, o Landsat 1 fotografava ao longo da sua trajetória uma faixa de terreno com 185 km de largura, o que lhe permitia fotografar a totalidade da superfície da Terra de 18 em 18 dias.
O L.1 funcionou durante 8anos, apesar de o seu trabalho já estar assegurado pelo L.2, lançado em 22.01.1975. O L. 3 foi lançado em 5.03.1978, o L.4, em 16.07. 1982, o L.5, 1.03.1984 e o L.7, em 15.04.1999. O L.6, lançado em 5.10.1993, falhou a sua órbita. Embora o princípio básico tenha sido sempre o mesmo, ao longo dos anos foi-se tornando mais sofisticado o equipamento transportado e aumentada a sua duração de vida. Atualmente, encontram-se em atividade os L.5 e L.7. A resolução das imagens obtidas é da ordem dos 15 metros em modo pancromático.
Na sequência da grande quantidade de veículos espaciais lançados para o espaço, existe uma grande quantidade de lixo espacial a flutuar no espaço. Estima-se em mais de meio milhão o número de pedaços a orbitar em torno da Terra, o que constitui um sério perigo para as missões operacionais. Os organismos coordenadores mantêm um sistema de vigilância constante para evitar que estes detritos possam colidir com os outros satélites.
Ao longo dos anos, os cientistas que trabalham neste projeto conseguiram registar imagens de grande beleza. Ao comemorar os 40 anos de atividade, decidiram eleger 5 imagens que, em seu entender, podem ser consideradas as melhores. Com os nossos agradecimentos, apresentamo-las em seguida, acompanhadas dum pequeno comentário. 

1.º lugar -  A fotografia mais bela, no entender dos cientistas da NASA, lembra a pintura “A Noite Estrelada”, de Van Gogh. O efeito é provocado pela grande quantidade de fitoplâncton verde, em torno da ilha de Gotland, no Mar Báltico. 





2.º lugar ‒ A imagem mostra o intrincado delta do rio Yukon, no Alaca. Os percursos sinuosos dos braços do rio lembram os vasos sanguíneos em torno dum órgão.




3.º lugar ‒ Imagem caprichosa do rio Mississipi, com as cidades situadas nas proximidades do seu leito e respetivos terrenos.




4.º lugar ‒ Imagem dos movimentos das dunas no deserto do Saara na Argélia, e que se estendem na região Erg Iguidi até à Mauritânia. São caracterizadas por grandes extensões de areia (a verde no registo) e podem atingir 500 metros de extensão e de altura.





5.º lugar ‒ Imagem representando o Lago Eyrie no sul da Austrália.












sexta-feira, 18 de maio de 2012


ECLIPSES

Dá-se o nome de eclipse ao desaparecimento total ou parcial de um astro pela interposição de outro corpo entre esse astro e o observador ou entre esse astro e o Sol que o ilumina. Além dos eclipses do Sol e da Lua, também se observam os eclipses de alguns satélites dos planetas (como no caso de Júpiter e de Saturno) e dos satélites artificiais pela sombra da Terra. Reserva-se a palavra ocultação para designar o desaparecimento de uma estrela ou de um planeta por detrás do disco lunar.  

Vamos apenas abordar os eclipses do Sol. Para um observador terrestre, os diâmetros aparentes do Sol e da Lua são aproximadamente iguais (cerca de 30'). Deste modo, quando a Lua, no seu movimento em torno da Terra, passa em frente do Sol, ela pode ocultá-lo, total ou parcialmente, durante uns breves instantes: diz-se então que há eclipse do Sol para esse observador terrestre. Este fenómeno só tem lugar quando a Lua, em conjunção com o Sol (Lua nova), se encontra num dos nodos da sua órbita, ou nas suas proximidades. Se, além disso, a Lua estiver mais perto da Terra, a extremidade do cone de sombra do disco lunar alcança a superfície da Terra, produzindo sobre ela uma sombra com o diâmetro máximo de cerca de 250 km (zona de totalidade) e se propaga com uma velocidade de 200 km/h, de ocidente para oriente. Um observador situado no interior do cone de sombra observa, assim, um eclipse total. Quando a Lua se encontra mais afastada da Terra, o seu diâmetro aparente é inferior ao do Sol e então a extremidade do cone de sombra não alcança a Terra, dando lugar a um eclipse anular (vê-se um aro do disco solar em torno da Lua). Dum e doutro lado da zona de totalidade, até uma certa distância, dá-se um eclipse parcial, em que a Lua morde o disco solar sem o ocultar completamente. A grandeza dum eclipse parcial é tanto maior quanto mais próximo se encontrar da zona de totalidade. O máximo de duração de um eclipse total do Sol é de 7 minutos e 30 segundos e o de um anular é de 12 minutos e 30 segundos; mas, normalmente, estes valores são sempre muito inferiores.

 Os eclipses totais do Sol só são observados numa determinada região com longos intervalos de tempo. Assim, o último eclipse total observado na Península Ibérica foi o de 17 de Abril de 1912, cuja zona de totalidade entrou a sul do Porto e saiu a leste de Gijon (Espanha). O próximo a ser observado na Península Ibérica (mas não em Portugal) será o de 12 de Agosto de 2026; depois desse, os povos peninsulares terão de esperar pelo século XXIII. Na região de Lisboa, desde a fundação da nacionalidade, apenas foram observados sete eclipses totais do Sol: 3 de Junho de 1293, 16 de Maio de 1379, 7 de Junho de 1415, 16 de Março de 1485, 21 de Agosto de 1560, 10 de Julho de 1600 e 8 de Julho de 1842.

Os eclipses reproduzem-se com uma certa periodicidade. Como o plano da órbita da Lua não conserva uma direcção fixa no espaço, a linha dos nodos retrograda sobre a eclíptica e passadas 223 lunações volta à mesma posição. Esse facto, já conhecido dos caldeus, deu origem ao ciclo de Saros, com a duração de 6585,32 dias (18 anos 11 dias e 8 horas), passados os quais os eclipses se repetem nas mesmas condições. Num ciclo de Saros há, em média, 86 eclipses: 43 do Sol e 43 da Lua. Num ano há, no máximo, 7 eclipses: 5 ou 4 do Sol e 2 ou 3 da Lua; há, no mínimo, 4, dois do Sol e dois penumbrais da Lua.
  
 Antigamente, o interesse científico dos eclipses residia, em especial, na verificação das tábuas dos movimentos do Sol e da Lua, dadas pelo cálculo. Mais tarde, esse interesse passou a incidir, no caso dos eclipses do Sol, sobre a observação dos astros que se encontram muito perto do Sol (planetas e cometas), no estudo da coroa solar, da cromosfera e das protuberâncias, que só podiam ser observadas e estudadas durante os breves minutos da totalidade. Felizmente, o coronógrafo de Lyot permitiu obstar a esse inconveniente. São numerosos e muito importantes os ensinamentos que se podem colher do estudo dos eclipses do Sol, quer no que se refere à física terrestre, quer à solar; destaca-se, em particular, o da curvatura do espaço-tempo, previsto por Einstein em 1915, na sua teoria da relatividade geral e observado no eclipse total do Sol de 29 de Maio de 1919.
                                                   
No caso do eclipse anular do Sol, em 20 de Maio de 2012, a fase anular, com uma largura de 240 a 300 km, como às 22h 06m TU no Sul da China, atravessa o Japão, percorre todo o Oceano Pacífico Norte e entra na América do Norte pela Califórnia. Continuando o seu percurso em território americano, vai terminar no Texas às 1h 26m TU do dia 21 (Ter em conta a Linha de Mudança de Data, que é atravessada).