domingo, 17 de fevereiro de 2013


 
TUNGUSKA (O acontecimento de)

 

A propósito do meteorito caído no passado dia 14 de Fevereiro em Cheliabinsk (Rússia), junto à fronteira com o Cazaquistão, e que provocou uma enorme onda de destroços e mais de 1000 feridos, veio-me à memória um caso semelhante ocorrido há pouco mais de um século: O acontecimento de Tunguska.

Tratou-se dum enorme cataclismo ocorrido na manhã do dia 30 de Junho de 1908 na região montanhosa e arborizada do rio Tunguska, na Sibéria Central, 800 km a noroeste do lago Baikal. Uma gigantesca bola de fogo foi observada por alguns camponeses aterrorizados e a violenta explosão, que se deu em seguida, foi ouvida a mais de 800 km de distância. Num raio de 600 km, a partir do ponto de queda, os condutores dos comboios, assustados, pararam as suas composições. Os fragmentos do bólide devastaram o terreno numa área circular de 80 km de diâmetro. Os abetos, atingidos pela violenta deslocação do ar, foram arrancados, cortados e incendiados num raio de 10 km. A onda de choque foi sentida em Washington e em Java e durante as noites seguintes, na Europa, na Ásia e na América, o céu apresentou uma luminosidade estranha, que persistiu durante cerca de dois meses, provocada pelas nuvens de poeira que flutuavam a cerca de 80 km de altura.

Foram escavadas mais de 200 crateras, de 1 a 5 metros de diâmetro, atualmente cheias de água. Segundo o astrónomo soviético Astapovitch, o bólide pesaria, provavelmente, um milhão de toneladas quando entrou na atmosfera. Penetrou nela a uma velocidade de 60 km/s e o calor gerado pelo contacto com as moléculas de ar, devia ter sido da ordem de 5×1020 calorias. A elevada temperatura atingida pelo bólide provocou gradualmente a fusão das camadas superficiais, depois a sua volatilização, de maneira que, quando chegou perto do solo, deveria ter apenas 40 000 ou 50 000 toneladas. Apesar de não terem sido encontradas grandes pedaços do bólide, que explodiu no ar, parece que as amostras do solo da região contêm lascas microscópicas e esférulas de poeira de ferro-níquel.

A ausência de uma grande cratera e de evidências diretas do objeto, que teria provocado a explosão, levou a serem formuladas diversas teorias para explicar a ocorrência. Apesar de ser ainda um assunto em debate, de acordo com alguns estudos recentes a destruição teria sido provocada pelas massas de ar após a explosão de um meteoroide ou de um fragmento de cometa a uma altitude de 5 a 10 km de altitude, devido ao atrito provocado pela sua entrada na atmosfera. O corpo deveria ter um diâmetro de algumas dezenas de metros e a energia da explosão deveria ser da ordem de 10 a 15 megatoneladas de TNT, isto é, cerca de 1000 vezes a bomba de Hiroshima, tendo provocando um sismo que se prevê ser da ordem de grau 5 na escala de Richter.

Relativamente à natureza do corpo, a questão continua a ser debatida. Em 1930, o astrónomo norte-americano Fred Whipple sugeriu que teria sido um pequeno cometa, um objeto essencialmente constituído por gelo e poeiras, que se teria vaporizado completamente na atmosfera, não deixando traços visíveis. Esta hipótese recebeu uma aceitação considerável, em virtude do brilho noturno, que se observou no céu durante muitas noites, poderia ser explicado pela luz do Sol refletida no gelo e nas poeiras dispersas pela cauda do cometa na alta atmosfera.

Em 1978, o astrónomo eslovaco Lubor Kresák sugeriu que talvez se tratasse dum fragmento do cometa Encke, responsável pela chuva de meteoros conhecida por β Táuridas. A ocorrência coincidiu com um pico de atividade da referida chuva e a trajetória estimada do corpo que provocou a explosão está de acordo com a que tomaria um fragmento de cometa.

Em 1983, o astrónomo checo Zdnek Sekanina publicou alguns artigos criticando a hipótese cometária. Segundo ele, se se tratasse dum corpo cometário, seguindo a trajetória observada, ele ter-se-ia desintegrado a grande altitude e não na baixa atmosfera como, de facto, aconteceu. Sugeriu que deveria tratar-se dum corpo mais denso, de natureza rochosa, provavelmente um fragmento de asteroide. Esta hipótese é igualmente defendida por outros astrónomos, visto que a sua trajetória leva a concluir tratar-se dum corpo vindo da cintura de asteroides. A grande dificuldade em aceitar esta teoria é que se trataria dum corpo rochoso e teria dado origem a uma enorme cratera e esta nunca foi encontrada. Porém, na década de 1990, alguns investigadores italianos extraíram resina de algumas árvores na zona de impacto e encontraram altas taxas de metais existentes nos asteroides e raramente nos cometas. Daqui toda a confusão acerca da sua natureza.

Várias outras teorias têm sido apresentadas, embora de pouca aceitação. Destacamos: choque com um mini buraco negro, choque com um pedaço de antimatéria, encontro com uma neve extraterrestre, etc. Dado que estas hipóteses não nos parecem ser aceitáveis, não lhe daremos qualquer desenvolvimento.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

 
O TRATADO DE TORDESILHAS
 
Quando Cristóvão Colombo regressou da América, após a sua primeira viagem (1493), D. João II fez saber aos Reis Católicos que as terras por ele descobertas pertenciam à coroa portuguesa, por se situarem a sul das ilhas Canárias, em conformidade com o Tratado de Alcáçovas, celebrado em 1479[1].

Com descoberta de Colombo, tudo se complicou. Embora se julgasse que as mesmas pertenciam a Portugal, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, a pretexto de terem sido eles os armadores da expedição, recorreram ao Papa Alexandre VI (o aragonês Rodrigo Bórgia) para que este lhes reconhecesse, como árbitro, essa posse, desenvolvendo nesse sentido grande atividade diplomática. Apressadamente o Papa, pela bula Inter Coetera II, marcou uma linha divisória de Pólo a Pólo, que passaria 100 léguas a ocidente da ilha mais ocidental dos Açores ou de Cabo Verde (certamente por sugestão de Colombo); a parte oriental ficaria para Portugal e a ocidental para Castela. D. João II recusou a decisão e projetou logo tratar diretamente do assunto com os Reis Católicos.
Após alguns contatos exploratórios, foi decidido realizar uma reunião em Tordesilhas com representantes dos dois países. Os Reis Católicos acabaram por renunciar à linha traçada por Alexandre VI e aceitaram outra da delegação portuguesa. Considerava-se a Terra dividida em duas zonas de influência: a ocidental atribuída a Castela, a oriental a Portugal. A divisão era feita ao longo dum meridiano traçado 370 léguas a oeste de Cabo Verde. O tratado foi assinado em Tordesilhas pelas respetivas delegações em 7 de Junho de 1494 e posteriormente ratificado pelos Reis Católicos e por D. João II. A pedido de D. Manuel, em 1506 o tratado foi sancionado pelo Papa Júlio II.
 Esta linha deveria ser fixada no prazo de 10 meses, o que acabara por não acontecer, especialmente por dificuldades técnicas. Assim, o meridiano de Tordesilhas nunca foi demarcado porque só muito mais tarde é que se começou a dispor de equipamento para o poder fazer, nomeadamente para a medição do tempo.

Também o tratado não dizia qual a ilha que deveria servir de ponto de referência para começar a contar as 370 léguas nem se as mesmas eram contadas ao longo do equador ou ao longo dum paralelo médio de Cabo Verde, isto é, cerca de 16º norte e estas questões tinham uma importância relevante na localização do referido meridiano. Notar também que se trata duma légua antiga, que teria cerca de 6600 de extensão. 
Ao impor mais essas 270 léguas em relação à proposta castelhana de 100 léguas, Portugal salvaguardava para si a rota africana do sudoeste em que havia muito tempo andava empenhado (em todo o Atlântico Sul, que para essa rota era necessário, devido à larga curva de navegação oceânica). É também provável que D. João II tivesse informações acerca de terras situadas a ocidente. Chegados a entendimento, Castela reservou para si as novas terras descobertas por Colombo e que sustentava ser a Índia.
De início, não surgiram problemas a ocidente. Mas, no século XVI, durante o reinado de D. João III, acentuaram-se os conflitos a oriente, ao longo do antimeridiano de Tordesilhas, sobre a posse das Ilhas Molucas. Estas ilhas cairiam no hemisfério castelhano se a contagem das 370 léguas fosse feita a partir da ilha cabo-verdiana mais próxima do continente africano e no hemisfério de Portugal se as mesmas fossem contadas a partir da ilha mais ocidental. Notar que as Ilhas de Cabo Verde se estendem por quase 3º em longitude, o que representa quase 50 milhas de extensão este-oeste. Dada esta incerteza e ao interesse que Portugal tinha sobre estas ilhas, devido a serem muito ricas em especiarias, D. João III decidiu comprar a Carlos V o direito de posse das mesmas por uma quantia avultada, de que aliás não dispunha nessa altura (Tratado de Saragoça, 1529).
É durante os anos de 1735 a 1737, com o assalto dos espanhóis à Colónia do Sacramento, na margem esquerda do Rio da Prata,  e a sua heroica defesa pelos portugueses, que o problema dos limites entre a América portuguesa e a espanhola se apresenta com toda a sua acuidade. Mas muito antes, D. João V, movido por bom conselho e rara previsão, procurava discretamente estabelecer as bases científicas do problema ou, por outras palavras, averiguar até que ponto a Colónia do Sacramento estava fora da soberania portuguesa, delimitada pelo meridiano de Tordesilhas.
Com efeito, o monarca mandara contratar em Itália, para o servirem como astrónomos ou, mais exatamente com técnicos de observação de longitudes, os Padres João Baptista Carbone e Domingos Capassi, da Companhia de Jesus, que, em Setembro de 1722 chegaram a Lisboa. Chamava-se-lhes então os «Padres Matemáticos». Após uma estadia de cerca de 7 anos, em Novembro de 1729 embarcaram para o Brasil os Padres Diogo Soares e Domingos Capassi (o Padre Carbone ficou na corte em Portugal como secretário de D. João V e professor dos filhos), a fim de fazerem levantamentos cartográficos de diversas zonas daquela colónia, em particular daquelas que podiam levantar dúvidas.
Os princípios consagrados pelo Tratado de Tordesilhas mantiveram sempre a sua validade na arbitragem das disputas luso-espanholas na América latina até à sua efetiva revogação pelos Tratados de Madrid (1750) e de Santo Ildefonso (1777), que fixaram as fronteiras do Brasil com as colónias espanholas que se mantiveram, com pequenas alterações, até à atualidade.

Com os dados de que dispomos atualmente e tomando como referência a ilha mais ocidental de Cabo Verde, o meridiano de Tordesilhas passa, em território brasileiro, por Belém do Pará e  por Laguna, em Santa Catarina. Nestas condições, a superfície do Brasil teria sido três vezes menor do que a atual se se tivesse em consideração o Tratado de Tordesilhas. Assim, a Colónia do Sacramento era, à data do conflito, nitidamente em território espanhol.
 


[1] De acordo com este tratado, D Afonso V reconhecia a Castela a posse das Ilhas Canárias (disputa que se arrastava desde o tempo de D. Afonso IV) e os Reis Católicos concordavam que Portugal ficasse com a Guiné, bem como com as ilhas achadas ou por achar , a sul do paralelo das Ilhas Canárias.

segunda-feira, 30 de julho de 2012


DISCOS VOADORES

Discos voadores: duas palavras que, separadamente, têm o seu significado próprio, e que juntas se plicam a algo cuja natureza é muito discutível. Um disco voador ou objeto voador não identificado, mais conhecido pela sua sigla OVNI, é um objeto que tem a forma de um elipsoide de revolução muito achatado, por vezes com um bojo central na parte superior, e, eventualmente, com três ou quatro patas. É assim o disco voador convencional. A sua cor é prateada e, por vezes, sobretudo de noite, com cintilações de várias cores, vermelho, verde, etc.

O seu comportamento é extraordinário, aparece de maneira súbita no céu, desloca-se a velocidade extremas, até cerca de 10 000 km/h, sem se notar a resistência do ar, nem produzir ruido e menos ainda o «bang» ao ultrapassar a barreira da velocidade do som. Em algumas ocasiões, mudam de direção até 90º de forma instantânea, param repentinamente e retomam a marcha igualmente, sobem e descem com a mesma rapidez. Em muitas ocasiões, têm produzido efeitos eletromagnéticos extraordinários, como motores de automóveis que deixam de trabalhar e recetores de que deixam de funcionar ao passar nas proximidades de um ovni. Outra manifestação extraordinária é a aterragem. Segundo algumas descrições, raramente deixam pegadas no solo, já foram vistas algumas pessoas, contando-se até casos de algumas vacas deixarem de produzir leite durante várias semanas após uma aterragem nas proximidades. Todas estas maravilhas e outras parecidas recordam os contos de fadas e de animais que falam, com que se divertem as crianças. Um comportamento tão fora do normal não se pode ser atribuído a artefactos de natureza humana.

A conclusão é óbvia: os ovnis devem ter proveniência extraterrestre, os seus tripulantes vêm de mundos muito mais adiantados do que nós, e a resistência de tais gentes talvez se deva a serem constituídos à base de silício, em vez de carbono, que é o fundamento da vida vegetal e animal na Terra. Tal suposição deriva de tanto o átomo de carbono como o de silício permitirem a formação de grandes moléculas ou em cadeia. Mas com o silício obtêm-se as pedras e as rochas, de maior estabilidade à temperatura a que ocorrem as reações químicas que constituem a vida à base de carbono que conhecemos.

A ciência (?) que estuda os discos voadores chama-se Ufologia, vocábulo derivado de ufo, iniciais da palavra inglesa unidentified flying objects (objetos voadores não identificados). Não é uma ciência de experimentação, mas de observação. Os estudiosos dos ovnis não podem provocar o fenómeno e é fatal que não observem nenhum. Têm de limitar o seu trabalho a interrogar as pessoas que afirmam tê-los visto. Isso tem dois inconvenientes. Em primeiro lugar, o observador casual, em geral, desconhece astronomia, astronáutica, geofísica, meteorologia, etc., e considera como ovni os bólides, o planeta Vénus, os satélites artificiais reentrados na atmosfera, os globos sonda, etc. Se conhecesse aquelas ciências, não consideraria estes fenómenos como ovnis. Em segundo lugar, a pouca fiabilidade de um único testemunho. Em direito romano dir-se-ia testem unum, testem nullum (testemunho único, testemunho nulo), como recordam os juízes. Não trataremos das aterragens e outras maravilhas, que se enquadram melhor no domínio da psiquiatria.

Não é credível que venham de outros planetas do Sistema Solar. Mercúrio sem atmosfera e a elevada temperatura; Vénus, com atmosfera de anidrido carbónico e 400 ºC ou mais de temperatura; os asteroides, cuja pequena massa não lhe permite ter atmosfera; Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno com atmosferas redutoras (metano, amoníaco, hidrogénio) e baixas temperaturas (‒135 ºC ou menores); e Plutão, a ‒200 ºC, não podem albergar qualquer tipo de vida. Talvez Marte escape à exceção, pois possui uma pequena atmosfera e com temperaturas da ordem dos ‒90 ºC, permitir-lhe-á possuir algum tipo de vegetação rudimentar, como musgos e líquenes.

Se os ovnis não vêm de outros planetas do Sistema Solar, devem provir de planetas de estrelas próximas, que tenham o espectro semelhante ao do Sol. São: ε Eridani, a 10,8 anos-luz de distância e espectro F2, e ε Ceti, a 11,8 anos-luz e espectro G4. O do Sol é G2. Estes tipos espectrais correspondem a estrelas de vida longa, que permite assegurar uma evolução orgânica aos seus planetas.

Põe-se, no entanto, o problema da viagem. A estrela mais próxima de nós, α Centauri, encontra-se a uma distância de 4,3 anos-luz, isto é, a sua luz demora 4,3 anos a chegar até nós (velocidade da luz: 300 000 km/s). Se imaginarmos ser possível imprimir a uma nave uma velocidade da ordem de um décimo da velocidade da luz, o que é materialmente impossível, uma viagem, num só sentido, demoraria 43 anos terrestres. Para as estrelas indicadas, seria da ordem dos 150 anos.

Mas, como em ciência de ficção, aos tripulantes dos ovnis nada é impossível. Estão tão adiantados que os seus veículos talvez possam ultrapassar a velocidade da luz, viajarem em estado de hibernação, etc. Pena é que tão grande saber apenas seja usado para vir explorar o nosso pequeno mundo e regressem a seus lares sem deixar qualquer notícia. Na realidade, apenas servem para espalhar a confusão na cabeça dos leitores dos numerosos livros que sobre o tema se publicam.

Talvez o fenómeno das miragens nos passa dar também alguma ajuda. Uma miragem é um fenómeno ótico , que ocorre em dias de muito calor, principalmente nas estradas em paisagens desérticas ou no alto mar, que altera duma maneira bastante intensa o aspeto das paisagens. Todos estaremos ainda lembrados da onda gigante que em Agosto de 1999 ameaçou invadir as praias de Vila Moura e Quarteira e que foram mandadas evacuar pelas autoridades militares numa confusão sem precedentes. Tratava-se de uma miragem provocada por uma onda de calor proveniente do norte de África.

Se avançarmos mais um pouco e pensarmos nas trovoadas? Sabemos que o intenso campo magnético desenvolvido pelos raios delas provenientes são suficientes para parar o motor de um automóvel ou provocar perturbações nas transmissões via rádio e desenvolver o fenómeno fading. Não se trata de ovnis.

E se introduzirmos agora a geofísica e os intensos campos eletromagnéticos desenvolvidos pela atividade solar em volta da Terra, principalmente nos períodos de máxima atividade. É aqui que devemos procurar explicar os casos ocorridos com as aeronaves ao analisar os intensos campos magnéticos que se criam à sua volta. Feito isto, talvez teremos desvendado quase todos os casos até agora inexplicáveis. As estatísticas indicam haver apenas uma percentagem residual que ainda não têm explicação (menos de 4%). É necessário que os cientistas dediquem algum do seu precioso tempo a fazer conferências sobre este tema, diminuindo assim a ignorância que infelizmente se instalou nalgumas mentes.

Finalmente, vou abordar alguns exemplos, os dois primeiros passados comigo e o terceiro passado com o General da Força Aérea Lemos Ferreira, ao tempo Capitão.

1.º caso. Pouco depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, algumas forças militares foram destacadas para dar apoio às populações. Destaco o caso de uma companhia de Engenharia encarregada de construir ou reparar algumas estradas municipais nos arredores de Lisboa. Os militares estavam acampados na zona das obras e todos os dias, ao cair da noite, pairava sobre o acampamento um corpo muito brilhante, que os militares pensavam ser algum objeto enviado pelo inimigo para os espiar. Um oficial ali destacado, que me conhecia desde a infância, procurou-me para ver se eu tinha alguma explicação para o fenómeno. Analisada a questão in loco, conclui ser o planeta Vénus, que à data estava muito brilhante. Aliás, este planeta é responsável por uma grande quantidade de ovnis.

2.º caso. Num determinado dia de Verão, ia eu, ao fim do dia, para o Observatório Astronómico de Lisboa, a fim de fazer uma observação astronómica. Ao chegar à zona da Tapada vejo no céu um balão, que parecia ter suspensa uma pequena caixa e descia mais ou menos ao longo do Tejo em direção ao mar. Já no Observatório, com um binóculo, confirmei isso mesmo e ao começar a escurecer tornou-se muito brilhante, em virtude de estar ainda a ser iluminado pelos raios solares. Confirmei junto do Instituto de Meteorologia que deveria ser um balão meteorológico sonda, não deles mas proveniente de Espanha ou de Itália. Às vezes, estalões percorrem grandes distâncias. Ali tive um ovni até pouco depois das 23 horas, com muitos telefonemos, que perturbou o meu trabalho programado.

3.º caso. No dia 4.09. 1957, quatro aviões F-84, da FAP, comandados pelo Cap. Lemos Ferreira, mais tarde General e Chefe do Estado-Maior da FAP, partia da Base Aérea da OTA, em treino de navegação noturna com destino a Córdova, regressando em seguida em direção a Portalegre e depois à OTA. De regresso, os quatro pilotos viram na direção de Cáceres, a norte, uma esfera esquisita, parecendo um corpo celeste anormal. O corpo encontrava-se na frente dos aviões e sensivelmente à mesma altitude, cerca de 8 km. Enquanto opinavam sobre o que devia ser, o corpo reduziu-se repentinamente, voltando pouco depois à dimensão inicial. O fenómeno repetiu-se diversas vezes, durante cerca de 15 minutos. Na zona de Cáceres, ao infletirem na direção de Coruche, começaram a ver o objeto à esquerda com a forma de um dedo ligeiramente encurvado e de cor avermelhada. Depois apareceram mais 4 pontos brilhantes, tomando o aspeto da figura junta, que pareciam ir contra os aviões, o que obrigou a esquadrilha a dispersar-se. Entretanto, os objetos deixaram de ser vistos.

Lemos Ferreira fez o respetivo relatório da ocorrência, mas não foi levado muito a sério. No entanto, ele teve o cuidado de se informar junto do Instituto Geofísico de Coimbra se nessa noite o campo magnético terrestre havia sofrido alterações sensíveis, o que, de fato, foi confirmado. Aqui temos um caso que pode muito convenientemente ser explicado pela geofísica, havendo conhecimento de casos posteriores semelhantes (Julho de 1975 e Setembro de 2001).

quinta-feira, 26 de julho de 2012


O PROJETO LANDSAT



Projeto norte-americano que consiste no lançamento de satélites civis destinados à observação dos recursos naturais da Terra a partir do espaço (deteção remota). O projeto é simultaneamente coordenado pela NASA e pela USGS (United States Geological Survey).
O primeiro satélite, lançado em 23.07.1972, marcou uma reviravolta nas aplicações espaciais. Com efeito, era inteiramente destinado à observação da Terra, a partir do espaço. Inicialmente, a observação espacial da Terra para fins civis, além do domínio muito particular da meteorologia, tinha sido testada a partir de alguns veículos espaciais em órbitas circunterrestres.
O interesse pelas fotografias espaciais tinha sido claramente estabelecido para numerosas aplicações: cartografia, delimitação dos territórios, classificação dos terrenos e das vegetações, evolução das culturas e das florestas, geologia, hidrologia, oceanografia, etc. Em particular, tinha-se concluído ser bastante interessante a técnica conhecida por “fotografia multibanda”, que consiste em obter simultaneamente uma fotografia da mesma região em diversos comprimentos de onda, sendo escolhido cada um deles para fazer ressaltar determinados elementos presentes.   
Com uma massa da ordem de 1 tonelada, o Landsat 1(L.1) gravitava a cerca de 900 km de altitude, numa órbita quase polar, com 99º de inclinação em relação ao equador e ajustada para ser heliossíncrona, isto é, conservando a mesma orientação em relação à direção Terra-Sol. No decorrer do seu movimento, o Landsat 1 fotografava ao longo da sua trajetória uma faixa de terreno com 185 km de largura, o que lhe permitia fotografar a totalidade da superfície da Terra de 18 em 18 dias.
O L.1 funcionou durante 8anos, apesar de o seu trabalho já estar assegurado pelo L.2, lançado em 22.01.1975. O L. 3 foi lançado em 5.03.1978, o L.4, em 16.07. 1982, o L.5, 1.03.1984 e o L.7, em 15.04.1999. O L.6, lançado em 5.10.1993, falhou a sua órbita. Embora o princípio básico tenha sido sempre o mesmo, ao longo dos anos foi-se tornando mais sofisticado o equipamento transportado e aumentada a sua duração de vida. Atualmente, encontram-se em atividade os L.5 e L.7. A resolução das imagens obtidas é da ordem dos 15 metros em modo pancromático.
Na sequência da grande quantidade de veículos espaciais lançados para o espaço, existe uma grande quantidade de lixo espacial a flutuar no espaço. Estima-se em mais de meio milhão o número de pedaços a orbitar em torno da Terra, o que constitui um sério perigo para as missões operacionais. Os organismos coordenadores mantêm um sistema de vigilância constante para evitar que estes detritos possam colidir com os outros satélites.
Ao longo dos anos, os cientistas que trabalham neste projeto conseguiram registar imagens de grande beleza. Ao comemorar os 40 anos de atividade, decidiram eleger 5 imagens que, em seu entender, podem ser consideradas as melhores. Com os nossos agradecimentos, apresentamo-las em seguida, acompanhadas dum pequeno comentário. 

1.º lugar -  A fotografia mais bela, no entender dos cientistas da NASA, lembra a pintura “A Noite Estrelada”, de Van Gogh. O efeito é provocado pela grande quantidade de fitoplâncton verde, em torno da ilha de Gotland, no Mar Báltico. 





2.º lugar ‒ A imagem mostra o intrincado delta do rio Yukon, no Alaca. Os percursos sinuosos dos braços do rio lembram os vasos sanguíneos em torno dum órgão.




3.º lugar ‒ Imagem caprichosa do rio Mississipi, com as cidades situadas nas proximidades do seu leito e respetivos terrenos.




4.º lugar ‒ Imagem dos movimentos das dunas no deserto do Saara na Argélia, e que se estendem na região Erg Iguidi até à Mauritânia. São caracterizadas por grandes extensões de areia (a verde no registo) e podem atingir 500 metros de extensão e de altura.





5.º lugar ‒ Imagem representando o Lago Eyrie no sul da Austrália.












sexta-feira, 18 de maio de 2012


ECLIPSES

Dá-se o nome de eclipse ao desaparecimento total ou parcial de um astro pela interposição de outro corpo entre esse astro e o observador ou entre esse astro e o Sol que o ilumina. Além dos eclipses do Sol e da Lua, também se observam os eclipses de alguns satélites dos planetas (como no caso de Júpiter e de Saturno) e dos satélites artificiais pela sombra da Terra. Reserva-se a palavra ocultação para designar o desaparecimento de uma estrela ou de um planeta por detrás do disco lunar.  

Vamos apenas abordar os eclipses do Sol. Para um observador terrestre, os diâmetros aparentes do Sol e da Lua são aproximadamente iguais (cerca de 30'). Deste modo, quando a Lua, no seu movimento em torno da Terra, passa em frente do Sol, ela pode ocultá-lo, total ou parcialmente, durante uns breves instantes: diz-se então que há eclipse do Sol para esse observador terrestre. Este fenómeno só tem lugar quando a Lua, em conjunção com o Sol (Lua nova), se encontra num dos nodos da sua órbita, ou nas suas proximidades. Se, além disso, a Lua estiver mais perto da Terra, a extremidade do cone de sombra do disco lunar alcança a superfície da Terra, produzindo sobre ela uma sombra com o diâmetro máximo de cerca de 250 km (zona de totalidade) e se propaga com uma velocidade de 200 km/h, de ocidente para oriente. Um observador situado no interior do cone de sombra observa, assim, um eclipse total. Quando a Lua se encontra mais afastada da Terra, o seu diâmetro aparente é inferior ao do Sol e então a extremidade do cone de sombra não alcança a Terra, dando lugar a um eclipse anular (vê-se um aro do disco solar em torno da Lua). Dum e doutro lado da zona de totalidade, até uma certa distância, dá-se um eclipse parcial, em que a Lua morde o disco solar sem o ocultar completamente. A grandeza dum eclipse parcial é tanto maior quanto mais próximo se encontrar da zona de totalidade. O máximo de duração de um eclipse total do Sol é de 7 minutos e 30 segundos e o de um anular é de 12 minutos e 30 segundos; mas, normalmente, estes valores são sempre muito inferiores.

 Os eclipses totais do Sol só são observados numa determinada região com longos intervalos de tempo. Assim, o último eclipse total observado na Península Ibérica foi o de 17 de Abril de 1912, cuja zona de totalidade entrou a sul do Porto e saiu a leste de Gijon (Espanha). O próximo a ser observado na Península Ibérica (mas não em Portugal) será o de 12 de Agosto de 2026; depois desse, os povos peninsulares terão de esperar pelo século XXIII. Na região de Lisboa, desde a fundação da nacionalidade, apenas foram observados sete eclipses totais do Sol: 3 de Junho de 1293, 16 de Maio de 1379, 7 de Junho de 1415, 16 de Março de 1485, 21 de Agosto de 1560, 10 de Julho de 1600 e 8 de Julho de 1842.

Os eclipses reproduzem-se com uma certa periodicidade. Como o plano da órbita da Lua não conserva uma direcção fixa no espaço, a linha dos nodos retrograda sobre a eclíptica e passadas 223 lunações volta à mesma posição. Esse facto, já conhecido dos caldeus, deu origem ao ciclo de Saros, com a duração de 6585,32 dias (18 anos 11 dias e 8 horas), passados os quais os eclipses se repetem nas mesmas condições. Num ciclo de Saros há, em média, 86 eclipses: 43 do Sol e 43 da Lua. Num ano há, no máximo, 7 eclipses: 5 ou 4 do Sol e 2 ou 3 da Lua; há, no mínimo, 4, dois do Sol e dois penumbrais da Lua.
  
 Antigamente, o interesse científico dos eclipses residia, em especial, na verificação das tábuas dos movimentos do Sol e da Lua, dadas pelo cálculo. Mais tarde, esse interesse passou a incidir, no caso dos eclipses do Sol, sobre a observação dos astros que se encontram muito perto do Sol (planetas e cometas), no estudo da coroa solar, da cromosfera e das protuberâncias, que só podiam ser observadas e estudadas durante os breves minutos da totalidade. Felizmente, o coronógrafo de Lyot permitiu obstar a esse inconveniente. São numerosos e muito importantes os ensinamentos que se podem colher do estudo dos eclipses do Sol, quer no que se refere à física terrestre, quer à solar; destaca-se, em particular, o da curvatura do espaço-tempo, previsto por Einstein em 1915, na sua teoria da relatividade geral e observado no eclipse total do Sol de 29 de Maio de 1919.
                                                   
No caso do eclipse anular do Sol, em 20 de Maio de 2012, a fase anular, com uma largura de 240 a 300 km, como às 22h 06m TU no Sul da China, atravessa o Japão, percorre todo o Oceano Pacífico Norte e entra na América do Norte pela Califórnia. Continuando o seu percurso em território americano, vai terminar no Texas às 1h 26m TU do dia 21 (Ter em conta a Linha de Mudança de Data, que é atravessada).
                          

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A Estrela de Belém

A Estrela de Belém:


mito ou realidade?


Os documentos existentes relativos a Jesus Cristo foram escritos várias décadas após a sua morte. Jesus não foi considerado importante quando em vida; por isso, não dispomos de detalhes precisos da sua vida, nomeadamente do sue nascimento.


As principais fontes de informação não bíblias sobre a Palestina, no tempo de Jesus, devem-se a Flavius Josephus, historiador judeu que escreveu entre os anos 70 e 100 da nossa Era. Numa das suas obras, faz uma breve referência a Jesus na sua fase adulta, mas sem precisar datas ou idades. Também Tacitus, historiador romano, mais ou menos contemporâneo de Flavius, faz uma breve referência a Jesus, mas à sua morte.


Só alguns séculos após a morte de Cristo, é que se pôs a questão de ligar este acontecimento a uma origem de contagem do tempo. A proposta foi apresentada pelo monge cita Dionísio o Exíguo por volta do ano 1282 da Fundação de Roma “ab urbe condita” (532 da nossa Era), no tempo do Papa João I. Dionísio o Exíguo supunha, de acordo com as suas investigações, que Jesus Cristo tinha vindo ao mundo no dia 25 de Dezembro (VIII das calendas de Janeiro) do ano 753 de Roma e fixara nessa data o início da Era cristã. Mas os cronologistas introduziram um atraso de sete dias, de maneira que o início da Era cristã foi transferido para o dia 1 de Janeiro do ano 754 de Roma.


Posteriormente, verificou-se que os cálculos não estavam correctos e que Cristo deveria ter nascido 5 a 7 anos antes da data em que se celebra o seu nascimento. Com efeito, essa data é posterior ao édito do recenseamento do mundo romano (ano 747 de Roma ou mais cedo) e anterior à morte de Herodes (ano 750 de Roma). Mas, para não perturbar a cronologia já estabelecida, foi mantida a data inicialmente proposta, embora tivesse deixado de corresponder ao significado inicial.


Após esta breve introdução, para nos situarmos no tempo, vamos abordar o tema a que nos propusemos. Na Bíblia, as únicas informações que temos encontram-se nos Evangelhos segundo São Mateus (Cap. 2; vers. 1 a 12 e 16) e São Lucas (Cap. 2; vers. 1 a 7), mas sem qualquer referência a datas e apenas no primeiro encontramos referência à Estrela de Belém. Diz São Mateus: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente: onde está o rei dos Judeus que acaba de nascer? ‒ perguntaram. Vimos a sua Estrela no Oriente e viemos adorá-lo”.


Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou preocupado, pois sabia ser pouco amado pelo seu povo e temia que a notícia despertasse um movimento de contestação da parte dos que esperavam pela chegada do Messias. Mandou chamar os magos para obter informações concretas sobre a estrela que lhes havia aparecido e pediu-lhes que o procurassem no regresso e o informassem do local onde se encontrava o menino, pois também ele queria ir adorá-lo. Após estas palavras do rei, os magos puseram-se a caminho e a estrela que tinham visto no Oriente, ia à sua frente e conduziu-os até ao local desejado, o que lhes provocou uma grande alegria. Entrando em casa, viram o menino junto de Maria, sua mãe. Depois de o adorarem, ofereceram-lhe os presentes que traziam: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos das más intenções de Herodes, regressaram às suas terras por outro caminho.


O Evangelho de São Lucas apenas faz referência ao édito do recenseamento do mundo romano e à viagem de José e Maria, de Nazaré (Galileia) até Belém (Judeia), bem como às condições em que ocorreu o nascimento de Jesus.


A imaginação popular transformou os magos em reis, que seriam três, por serem três os tipos de presentes e baptizou-os com os nomes de Melchior (rei da Pérsia), Gaspar (rei da Índia) e Baltazar (rei da Arábia).


Mas, afinal, o que teria sido a Estrela de Belém? A primeira explicação foi a de que teria sido um cometa e alguns astrónomos, no século XVI, sugeriram mesmo o nome do cometa de Halley. Mas a aparição deste cometa, mais próxima do nascimento de Cristo, ocorreu no ano 12 a.C. e, portanto, muito longe da data prevista. Não existem referências a outros cometas visíveis a olho nu entre os anos 7 a.C. e o ano 1 da nossa Era, período admissível para o nascimento de Cristo.


Teria sido uma “nova” (estrela velha que repentinamente aumenta intensamente de brilho, em consequência de uma enorme explosão ocorrida no seu interior)? Estas estrelas permanecem visíveis a olho nu durante algumas semanas ou mesmo meses, para depois desaparecerem lentamente. Se fosse uma “nova”, ela teria sido notada por outras pessoas que contemplassem o céu e haveria alguns registos dessa aparição, o que não acontece.


Na hipótese de a Estrela de Belém ser uma realidade, o mais provável é que tenha sido a conjunção de dois ou mais planetas. Com efeito, no ano 7 a.C. houve uma tripla conjunção entre Júpiter e Saturno na constelação dos Peixes. Estes planetas aproximaram-se bastante no céu, mas não o suficiente para serem confundidos como uma estrela única, nos meses de Maio, Setembro e Dezembro. Os que acreditam ver nesta tripla conjunção a Estrela de Belém, argumentam: os magos viram a primeira conjunção e puseram-se a caminho; durante a segunda, chegaram a Jerusalém; e, durante a terceira, chegaram a Belém.


Em Fevereiro do ano 6 a.C. houve igualmente uma grande aproximação (quase conjunção) entre Júpiter, Saturno e Marte, também na constelação dos Peixes. Seria esta aproximação a Estrela de Belém?


Coloca-se também a hipótese de se ter tratado duma aproximação entre Júpiter e Régulo (a estrela mais brilhante da constelação do Leão), ocorrida em Setembro do ano 3 a.C. Esta constelação era considerada a constelação dos reis e também estava associada ao “Leão de Judá”. Seria este o sinal que levou os magos a iniciarem a viagem? Em Outubro do mesmo ano, houve uma conjunção entre Júpiter e Vénus, também na constelação do Leão. Em Fevereiro e Maio do ano seguinte, aconteceram igualmente duas conjunções entre Júpiter e Régulo e ainda em Junho temos mais uma conjunção, agora entre Júpiter e Vénus.


São estes os fenómenos astronómicos conhecidos que ocorreram durante o período do provável nascimento de Jesus Cristo. Alguns historiadores defendem actualmente que Herodes teria morrido não no ano 750 de Roma, mas sim no ano anterior, o que encurta o intervalo das dúvidas acerca do nascimento de Cristo. Também, pelas descrições feitas no Evangelho segundo São Lucas, acerca dos pastores que pernoitavam nos campos junto dos seus rebanhos, enquanto estes pastoreavam, não é crível que Cristo tenha nascido em fins de Dezembro, visto nessa época do ano estar muito frio, durante a noite, naquela região e escassearem as pastagens. É mais provável que o nascimento tenha ocorrido numa época mais amena. Aliás, durante os primeiros séculos do cristianismo, o nascimento de Jesus foi celebrado em diversas épocas, nomeadamente na Primavera. Só após os estudos de Dionísio o Exíguo é que se optou pelo dia 25 de Dezembro. Este dia deveria ter sido escolhido para coincidir com uma festa pagã que se celebrava, nessa data, no mundo romano.


Quanto à Estrela de Belém, era crença no mundo antigo associar o nascimento de um grande pensador ao aparacimento de uma estrela brilhante. Aconteceu isso com Buda, Confúcio, Sócrates, etc., e que os magos acorriam imediatamente a homenageá-lo, a adorá-lo, levando-lhe igualmente presentes. Esta é a realidade dos factos. Como surgiu a descrição apresentada no Evangelho segundo São Mateus, atrás referenciada? Não sabemos …



domingo, 1 de maio de 2011

A data da Páscoa no Cristianismo

A data da Páscoa no Cristianismo

Nota: Antes de entrarmos propriamente no tema que nos propomos abordar, convém esclarecer o seguinte: a) O Calendário Judaico é um calendário lunar: os meses começam com o aparecimento do crescente lunar, após a Lua nova e terminam no fim da lunação; b) Os dias têm início ao pôr-do-sol e terminam ao pôr-do-sol do dia seguinte: são assim antecipados em cerca de 6 horas em relação ao que se passa no nosso calendário.

O nome Páscoa deriva da palavra hebraica pessach (passagem) que, para os hebreus, significa o cativeiro e a libertação do povo judeu, até então prisioneiro dos faraós egípcios. De acordo com a tradição, a primeira Páscoa ocorreu há cerca ded 3600 anos, quando, segundo a Torá, Deus enviou as dez Pragas sobre o povo do Egipto. Antes da décima Praga, o profeta Moisés recebeu instruções para que cada família hebraica sacrificasse um cordeiro e pintasse os umbrais das portas com o sangue do cordeiro, para que não fossem acometidos pela morte os seus primogénitos.

Chegada a noite, os hebreus comeram a carne do cordeiro, acompanhada de pão ázimo e ervas amargas. Por volta da meia-moite, um anjo enviado por Deus feriu de morte todos os primogénitos egípcios, incluindo os familiares do Faraó. Este, temendo a ira divina, aceitou a libertação do povo de Israel, o que o levou ao Êxodo. Como recordação da sua libertação, o povo de Israel instituiu para todo o sempre o sacrifício da Páscoa. A data escolhida foi o dia de Lua Cheia que ocorra imediatamente a seguir ao equinócio da primavera.

A Páscoa judaica tem, pois, início no dia 14 de Nisan, com a imolação do cordeiro pascal. Nessa mesma noite (mas já 15 de Nisan, no calendário judaico), os fiéis participam nas festividades rituais e comem o cordeiro pascal. A Páscoa era adiada de um dia se o 14 de Nisan fosse uma sexta-feira, par evitar dois dias consecutivos de festa.

A Igreja recorda-nos que Jesus celebrou três Páscoas. Na quarta, vésperas da sua morte, instituiu a Eucaristia e esta última Ceia teve lugar numa quinta-feira à noite (15 de Nisan). A ressurreição ao terceiro dia situa-se, portanto, no domingo, 17 de Nisan. Assim aparece a terceira complicação da Páscoa cristã: os cristãos quiseram que ela fosse celebrada no domingo a seguir à Lua Cheia da primavera.

Sabemos que os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo ocorreram quando Pôncio Pilatos era Governador da Judeia, o que ocorreu, segundo os registos romanos, entre os anos 779 e 789 da Fundação de Roma (anos 26 a 36 da nossa Era). Mas existem dúvidas quanto à data exacta: uns alvitram o ano 782, outros optam pelo ano 786).

A astronomia permite resolver esta dúvida. Se a Ceia teve lugar numa quinta-feira, a ambiguidade desapare. Sabemos que no ano 782 de Roma, a Lua nova que se seguiu ao equinócio da primavera teve lugar no dia 3 de Abril; portanto, o mês de Nisan começou com o crescente lunar no dia 4 ou 5 de Abril; o 14 de Nisan correspondeu ao dia 17 de Abril, que foi um domingo, ou ao dia 18 de Abril, que foi uma segunda-feira. O ano 782 está excluído.

No ano 786, a Lua nova do equinócio da primavera teve lugar no dia 19 de Março cerca do meio-dia, hora de Jerusalém. O dia 1 de Nisan deveria ter ocorrido a 20 ou 21 de Março; o dia 14 de Nisan teve lugar ao pôr-do-sol do dia 2 ou 3 de Abril; a cronologia indica-nos que o dia 2 de Abril foi uma quinta-feira e, portanto, o dia da ressurreição, um domingo, caiu no dia 5 de Abril. O verdadeiro aniversário da ressurreição de Cristo será, portanto o dia 5 de Abril. Se um dia se quiser estabilizar a data da Páscoa, este parece ser o dia indicado. Jesus Cristo deveria ter então cerca de 40 anos, pois o seu nascimento deveria ter ocorrido 5 an7 anos, antes da data oficialmente adoptada.

A celebração da Páscoa nas Igrejas cristãs deu inicialmente lugar a imensas confusões: uns escolheram o dia 17 de Nisan, qualquer que fosse o dia da semana; outros, o primeiro domingo depois do dia 17 de Nisan; outros ainda, para poupar os Judeus convertidos, conservaram o costume de celebrar a data da Páscoa no dia antigo da Páscoa judaica, o 14 de Nisan; os mais numerosos, entre os quais se incluía o Papa, optaram por celebrar a solenidade no domingo que seguia ao décimo quarto dia da Lua de Nisan.

Depois de três séculos de conflitos, o Concílio de Niceia, no ano 325, estabeleceu a regra que ainda hoje se aplica:

A Páscoa celebra-se no domingo que se segue ao décimo quarto dia da Lua que atinge esta idade no dia 21 de Março ou imediatamente a seguir.

Trata-se duma Lua convencional do calendário eclesiástico. Notemos que o décimo quarto dia nem sempre coincide com a Lua Cheia.

De acordo com esta regra, a Páscoa pode oscilar entre o dia 22 de Março e o dia 25 de Abril. Com efeito, se a Lua atingir os seus 14 dias em 21 de Março, esta é a Lua pascal; se o dia seguinte for um domingo, é dia de Páscoa. Pelo contrário, se a Lua atingir o seu décimo quarto dia em 20 de Março, já não é a Lua pascal: é preciso esperar pela seguinte e pelo seu décimo quarto dia, que ocorrerá em 18 de Abril. Se este dia for um domingo, é necessário esperar mais uma semana e a Páscoa só será celebrada no dia 25 de Abril. Os inconvenientes civis e religiosos desta perpétua oscilação são bastante grandes.

As datas extremas raramente têm sido alcançadas. Assim, a Páscoa teve lugar no dia 22 de Março em 1598, 1693, 1761, 1818 e voltará a ocorrer em 2285; coincidiu com o dia 25 de Abril nos anos 1666, 1734, 1886, 1943 e voltará a coincidir em 2038 e em 2190.

Quando a Igreja adoptou a regra para fixar a data da Páscoa não se conheciam com exactidão os movimentos aparentes do Sol e da Lua. A data da Lua cheia pascal continua a ser calculada com os conhecimentos de então, resultando algumas discrepâncias, quando comparamos com os valores actualmente obtidos para a data da Lua cheia astronómica. Assim, no ano de 1798, a Páscoa deveria ter sido celebrada no dia 1 de Abril, se se tivesse seguido o movimento real da Lua, mas celebrou-se no domingo seguinte. Em 1818, o dia de Páscoa deveria ter ocorrido no dia 29 de Março se tivéssemos utilizado a Lua cheia astronómica, mas teve lugar no dia 22 de Março.

É a partir da data da Páscoa que dependem, para os católicos, todas as festas móveis: Septuagésima, 63 dias antes; Domingo Gordo, 49 dias antes; Cinzas, 46 dias antes; Ramos, 7 dias antes; Ascensão, 39 dias depois; Pentecostes, 49 dias depois; Santíssima Trindade, 56 dias depois; Corpo de Deus, 60 dias depois; Coração de Jesus, 68 dias depois.